Babies – Texto de apresentação do disco “Babies”

Por Pérola Mathias

Bruno Cosentino dá as caras. Se em Amarelo o torso nu (que anunciava seu primeiro disco solo) preconizava a contraditoriedade do desprendimento do corpo descoberto e, ao mesmo tempo, sua forma escultural misteriosa e científica, refletida sem a cabeça, já na capa de Babies somos tragados pela vida borrada do batom vermelho que nos chama nas pontas dos dedos entrelaçados de Bruno, entrando tortuosos em sua boca, e na camisa semiaberta de quem amanheceu desperto de uma noite agitada.

Babies pode ser uma balada pop romântica, mas sem as obviedades que este último termo suscita. Ouvi(ve)mos nele a vida desvelada na pista de dança em clima setentista, experienciando o canto de uma poesia de fôlego deslocado.

Babies traz ideia, conceito e personalidade. E quando nos balançamos com “peixes nadando em nossas bocas”, dançamos não sem um quê de melancolia. Afinal, o que nos leva a rasgar uma pista de dança de forma emocionada?

Em “Amor”, feche os olhos e pense com alegria no incômodo mais cotidiano da vida a dois: os cabelos que misteriosamente vão se pregando nos azulejos do box do banheiro. Pois na letra de Pedrinhu Junqueira e Julia Shimura, no som do Exército de Bebês somado ao canto e vocalizações a la Gil que Bruno muito gostosamente faz, o corriqueiro não racionalizado vem à tona — e é impossível não dar um sorriso canto de boca dizendo para dentro: “é mesmo!”.

Com Babies, dançamos de olhos fechados sem nunca perder o balanço da proposta, pois o disco tem essa sonoridade redonda, uníssona, em que o tema, assim como em Amarelo, ainda que com letras supostamente mais simples (é o que diz o próprio Bruno), tratam do que temos de mais complexo: a própria vida, em que seguimos incessantemente buscando entender nossa existência.

Para mim, é isso “Homens flores”, composição de Luís Capucho e Marcos Sacramento. A beleza humana de poder olhar uma direção, rumar a ela com a esperança e a força para promover o renascimento da poesia. Uma poesia viva, que cresce e se multiplica com o cultivo de homens fortes/homens flores/flores homens.

E Babies traz também dias de sol. “The Big Blue” é o grande segredo por detrás de um dia brilhante na praia. Enquanto da areia se olha o mar infinito, um corte na luz mostrará que naquele cenário uma veia aberta se esconde: nascemos nus e seguimos sós. As letras de Bruno Cosentino trazem essa marca, elas retratam encontros, instintos e pulsões. O que poderia cair melhor na canção brasileira contemporânea? A resposta é Babies: nossas crises vestidas para dançar e brilhar – muito! Seguimos na urgência ansiosa de pensar no amanhã cedo, como se já fosse setembro – o mês que sucede o agourado agosto rumo ao novo, ao próximo ano, mais um, em que talvez saberemos mais, amaremos melhor e conviveremos mais pacificamente com os nossos amores.

“Me embaralhe ria dance na beira da cama dance”. Babies lembra e prenuncia, nos suspende no tempo, para que saiamos dançando/transando todas até de manhã, emendando mais uma para que o agudo do wurlitzer não acabe nunca mais.