Corpos
Por Marcos Lacerda

O novo disco de Bruno Cosentino, Corpos são feitos pra encaixar e depois morrer, dá continuidade às suas experimentações de som pop sofisticado junto a uma poética do corpo, como fizera em Amarelo, seu álbum de estreia. Por poética do corpo entendamos uma poética voltada para a relação concreta e sensível entre o sujeito e o Outro, mediada sempre pelo desejo em dois movimentos: impulso para-fora e retorno para si. Entre a necessidade desesperada de dispersão e a intensidade do desejo de amparo e resguardo de si.

Na abertura do disco, a primeira canção, “É claro que eu queria”, tem como tema o desejo de permanência no Outro para além do sexo (“é claro que eu queria você só pra mim”), entendido aqui como instante de encontro real, sentido na pele (“apertamos nossos corpos com vontade”), como presença inscrita no corpo (“o cheiro no meu dedo ainda é muito forte”).

Em “Sou frágil”, o sujeito da canção prefere ser muitos, se perder nos corpos de muitos outros, num processo radical de despersonalização (“eu quero morrer em outros corpos”); existir numa variação de seres que habitam o limiar da transgressão (diaba, tirana, bárbara, pária), vivendo numa dimensão plurissexual, “como um bicho no cio/ uivando pra lua” e que deseja ardentemente homem e mulher (“eu quero a mão do meu homem/ e o mel da mulher”), sempre como sensação real no corpo (“rio grito mordo/ doida de prazer”).

Se na primeira canção o desejo de fusão com o Outro é dito num tom de quem quer viver uma relação a dois, doce e amena, e na segunda o sujeito da canção se despersonaliza radicalmente e se transforma em figurações transgressoras e andróginas, na terceira, uma regravação de “Tem que ser você” (Caetano Veloso), o tom é de afirmação e separação, sem qualquer forma de indiferenciação entre os gêneros (“tem que ser você/ tem que ser mulher/ tudo no lugar certo”). Ainda que admitindo a possibilidade de beleza no enlace homoerótico (“e homens, o amor-mentira/ pode ser tão bonito”), as coisas aqui precisam estar “no lugar certo” (“tem que ser a flor/ tudo tem sua fonte”). A fonte certa, no tempo certo, do acaso de Deus e da precisão do querer.

Em “Obs.” (com Pedro Carneiro) a morte e a vida se associam ao ato sexual (“morrer entrar nascer sair”) e ao impulso permanente de retorno à origem, de desprendimento e soltura de si no mundo (“querer entrar entrar/ de novo sair”). A saída do corpo no nascimento é vivenciada como tentativa de retorno (“querer entrar por onde saí”). O eterno retorno, a fusão com a totalidade que associa vida e morte num círculo (“tudo é circular”), no movimento do tambor tocado ao fundo. O mesmo tambor de “Três”, que homenageia o nascimento de Antonio, o seu filho.

Soa bonita e estranha a canção “Anti-história”. A melodia embala suavemente e sugere uma temática mais amena. Não é o que aparece. Fala-se em democracia do ocidente, tiranos, curva decadente da humanidade, riso que não reconcilia, tudo dito assim, como que jorrando. O desencontro entre o que a melodia sugere e o que diz a letra causa uma sensação de deslocamento, como impossibilidade de fusão, agora num plano formal. Letra e melodia se observam com estranhamento, como corpos que não se encaixam e não se reconciliam.

O nascimento reconcilia. O sexo movimenta o desejo, entre despersonalização e retorno a si. Aquilo que entra e sai e quer de novo entrar e sair entre os limites do real e a dispersão devassa do prazer. Repouso e aceleração. Movimento e tensão. Necessidade de deslocamento. Tudo valendo pelo sexo no centro, como diz sutilmente em “Meu bem” (“não tenho jeito/ o gosto líquido/ teu sexo”). A maturidade poética, formal e existencial da canção saber vivenciar a intensidade das coisas. A sua leveza melancólica sintetiza bem o sentido deste álbum, recheado daquela doçura da vida que nos enche de uma alegria secreta, mesmo em meio ao desejo que bambea entre o nascimento e a morte.

Cine-diário