Faixa a faixa “Amarelo” – Revista Roda

  1. Tarde

Esta canção é uma canção curta. Ela e “Amor a quanto obriga”, quando as compus, pretendia que fossem uma só; os acordes são os mesmos, a temática também, mas não deu. Escolhi então colocá-las juntas na forma de dístico; acaba uma e começa a outra. Vamos rodar um clipe em que elas estarão juntas também. Ela tem uma letra meio cifrada, deserto, umbigo, amarelo. Me traz a cor amarela. Aliás, iria se chamar “Amarelo”. O nome “Tarde” eu peguei do livro do poeta Paulo Henriques Britto. Adoro o nome. Queria muito que tivesse a participação do Arto Lindsay nessa faixa e ele topou. A guitarra dele tem pra mim um impacto estético fulminante e funciona na canção como uma lâmina atravessando a suposta harmonia dela; é pra soar mesmo como uma pessoa atravessando a outra, duas existências querendo o impossível e doloroso de se tornar uma.

  1. Amor a quanto obriga

Como eu disse, ela forma um díptico com “Tarde”. A temática é a mesma: a ferida de amar e ser amado. Ter que se dar, abdicar voluntariamente do nosso império individual. Ao mesmo tempo, acredito que seja uma revelação religiosa sem deus. Porque se revela o que nós somos não a partir da solidão mas a partir da outra pessoa. Esse título eu tirei de um poema do Eucanaã Ferraz, que por sua vez tirou (ele não tem certeza) de um poema de Camões. A canção traz imagens do Rio de Janeiro, minha cidade, lugares que costumo frequentar, o Parque do Flamengo, com aquela rocha do Pão de Açúcar, que parece um monolito à minha frente, a entrada da baía de Guanabara. Tem essa junção de um estado amoroso com uma pessoa e com a cidade, com a pessoa na cidade.

  1. Preciso aprender a não ser

Ainda na linha da ferida aberta, esta canção é mais raivosa. Ela é um pouco um “chega pra lá”, tipo “tô em silêncio e me deixa quieto”. É a letra de que mais gosto. Tem essa brincadeira no título com a canção do Marcos Valle e também com a resposta do Gilberto Gil a ela e a minha desdizendo as duas. Além disso, tem ecos da minha leitura de Marina Tsvetaieva, do Nature Boy, “qual de nós amou e foi amado”, e dessa coisa bonita que não sei de onde vem, que é a “saudade de não sei quem”, uma saudade primordial, a melancolia em estado puro. Esse disco é um disco muito melancólico. Todo ele. Uma melancolia que eu também identifico ao Rio de Janeiro. Ela se parece com a neblina da cidade. Por isso, embora suave (que é) – sua característica -, não deixa de ser profunda, como tudo o que é verdadeiro.   

  1. Sem pecado

“Sem pecado” fala do desejo, do magnetismo dos corpos, do que está para além das convenções sociais. Gosto da melodia dela. No arranjo, quis que tivesse a acentuação no segundo tempo do compasso, apesar de não ser um samba, mas para dar essa síncope nuclear, concentrada do surdo de primeira. Muniz Sodré escreveu um livro maravilhoso que se chama “O dono do corpo”, falando da síncope do samba. O tempo forte do compasso fica vazio e temos a necessidade de preenchê-lo com o corpo. Daí ser o samba um gênero que nasce indissociado da dança. Essa canção fala justamente desse espaço vazio, interdito, querendo ser preenchido pelos corpos, para em seguida suspendê-lo como um monumento, como anti-história.

  1. Duas pétalas vermelhas

É uma canção com a mesma temática de “Sem pecado”. A cidade estava no verão. Todo mundo transpirando muito, com sal no ar e no corpo. Estava lendo poesia japonesa, uma edição traduzida pelo Haroldo de Campos, linda. Quis fazê-la toda com paralelismos, “sua boca”, “minha boca”, “seus lábios”, “seus olhos”, “meus olhos” e por aí vai. Ela é cheia de metáforas e depois percebi que fala muito do aqui agora, da relação com o lugar e o momento. Essa é uma importante questão pré-socrática. Me identifico com ela. E ainda tem na letra o rio (a cidade, mas também o fluxo de água doce), aquela coisa do Heráclito de que não se pode banhar duas vezes em águas repetidas. Eu chamei o Marcos Lobato pra fazer as guitarras e um piano elétrico e ele deu a cara do arranjo. Eu amo o Lobato – a pessoa e o músico. Ele tinha produzido uma faixa do Cazuza, que gravei pra coletânea “Projeto Agenor”, do DJ Zé Pedro e da Lorena Calábria, e quis repetir. Adoro o vocalzinho no final, com backing luxuoso da cantora Michele Leal e do sub-grave do Bartolo.

  1. Respira

Estava no vagão do metrô e não sei porque, mas depois percebi isso em outras músicas, e também as pessoas me contavam, que os trens do metrô são altamente excitáveis sexualmente (tem aquela música do Antonio Cicero, Waly e Caetano, “jogo rápido, lingua ligeira olhos arregalados”, “nos flancos de um trem de metrô”, “Grafitti”); enfim, parece que rola essa tensão sexual no vagão do metrô; não posso nem imaginar o motivo; mas escrevi essa letra direta e sem rodeios. Eu não curto tanto ela, mas gosto da sacada da letra e acho que tem um dos versos mais bonitos do disco, “podemos morrer pela cintura”, de influência direta do poeta português Eugénio de Andrade, que é pura sensualidade. Tem também, como em outras músicas, a metáfora do orgasmo como morte.

  1. Por que

Essa canção é a única do disco que não é minha. É uma canção do segundo disco do Otto, que desde que a ouvi, faz tempo, fiquei com ela na cabeça como uma canção de melodia e letra bem bonitas. Tem esse início que acho uma obra prima, “por que você me quer assim triste e traiçoeiro, se eu posso dividir meu corpo e meu amor?”. Mas na gravação do Otto a melodia não está tão em evidência. Ele não cantava muito bem nessa época e o arranjo dele também não realça isso, fica mais numas texturas rítmicas eletrônicas que eram moda na época da gravadora Trama, onde ele gravou. Acho as imagens das mãos, “seus dedos”, “vou esquentar os pães”, de um calor da intimidade muito expressivo. Enfim, acho esta canção muito bonita e tem tudo a ver com as outras do disco, por isso quis gravá-la. Além de eu ter uma vontade cada vez maior de gravar músicas de outros compositores, misturadas às minhas, nos meus discos.

  1. Pra que perder tempo

Essa é uma canção que fiz quando estava fazendo um show em Belém do Pará. Tinha brigado por telefone. E fiz esses versos bem sintéticos. Tem de novo o lance, ainda mais evidente, da relação do orgasmo com a morte. Sinto que quando brigo com minha mulher é como se isso fosse se somando subjetivamente no total de nossa vida juntos como momentos ruins, enfim, momentos em que não gozamos, não temos prazer neles. Sei que as brigas são necessárias, mas muitas vezes dá pra não brigar, é perder tempo. Então fico brincando com isso, gozar a vida e gozar do orgasmo. Algumas pessoas vieram me falar que adoraram essa música. Eu não esperava muito dela, apesar de adorar o arranjo; tem a guitarra do Pitter Rocha com uma afinação africana oriental que é linda.

  1. Este lugar

Fiz esta canção a partir de uma conversa entre mim, minha mulher e um amigo deitados no Aterro. Existiam ali do nosso lado umas palmeiras que dão flor de cinquenta em cinquenta anos e morrem em seguida. Ela estava dando flor na época. Depois de um tempo desse nosso encontro, passei por lá e vi que o tronco da palmeira estava caído, sem a copa, parecia um pau mole. Foi umas das primeiras melodias que fiz e por causa dela pensei em fazer o disco. Foi pensando em fazer melodias simples como essa que fiz as outras canções. Acho que ela representa bem o que gostaria de ter alçançado com o disco. Canções simples, num estado de decantação que soasse bem aos ouvidos, mas que não fossem banais. Essa é a minha aspiração máxima na música. Fazer com que as canções entrem na cabeça das pessoas sem dificuldade, mas com alguma aspereza que não as façam soar como mera diluição, daquelas que a gente ouve uma vez, canta sem parar e depois não quer ouvir nunca mais.

  1. Dois

Esta canção eu fiz na noite em que minha mulher viajou pra passar três meses fora. Foi a primeira vez que nos separamos por um período maior. Fiquei muito triste e preocupado e me senti sozinho. É uma música que é uma indagação, como outras do disco aliás, uma grande interrogação sobre a possibilidade de se viver junto. Acredito que essas perguntas devem nos rondar sempre, porque são elas que vão fazer a gente seguir em frente sempre lúcido, sem nos enganar; porque é muito fácil cair na armadilha do casamento feliz e acho que esse é o pior dos erros. Pra citar Odair José, “felicidade não existe, o que existe na vida são momentos felizes”. E precisamos gozá-los.