Um disco sem conceito – Encarte do disco “Babies”

Queria fazer um disco sem conceito. Canções que ainda não tinha gravado, algumas em parceria, outras de amigos. Sentia que elas precisavam de uma banda, porque não bastavam no violão. Precisavam do registro da performance. Convidei então os meninos do Exército de Bebês — Guilherme Lírio, Pedro Fonte, Iuri Brito e Thomás Jagoda —, com quem iria gravar um single, que acabou se tornando este disco. Babies me veio à cabeça intuitivamente. Mas foi ficando e fazendo sentido. A ideia era ensaiar três vezes e gravar. Para reter a energia da tensão que deixa todo mundo aceso, tentei administrar o tempo dedicado a cada canção, para que não as deixássemos perder o gosto. Não queria que ficássemos amarrados nos arranjos, porque o mais importante era captar o momento. No último ensaio, duas canções foram incluídas — “Nunca mais” e “Babies” — e fizemos mais um para não chegar em branco no estúdio. Desde o primeiro encontro, fiquei apaixonado pelos meninos, eles chegaram com todas as canções em cima, pensei, é o Rio de Janeiro que pode dar certo, relaxamento e disciplina sem anulação de fase. As versões que gravamos foram praticamente aquelas que tocamos no primeiro dia. Fiquei impressionado com a musicalidade sem esforço deles, ao mesmo tempo muito estudiosos dos grandes discos. Num final de semana de setembro, gravamos no estúdio do Pedro Carneiro, que pilota seus equipamentos com a sensibilidade de compositor, na minha opinião um dos melhores dos nossos dias — eu o tinha visto coisa de dez anos antes fazendo participação num show do Guinga e ficado com uma impressão fortíssima, até que no verão do ano passado, perguntei ao nosso mestre o nome daquele cara, o procurei no facebook, achei um outro Pedro Carneiro em Portugal, mas finalmente soube dele através de amigos. Desde a minha banda Isadora, tenho aprendido que a gravação de um disco é uma experiência afetiva muito intensa, porque nos relacionamos através da música com pessoas que até então não conhecíamos. E a música é parte constitutiva da personalidade de cada um, toda uma história de vida por detrás. E tudo isso é dado incondicionalmente na gravação, uma doação grande, porque o que se dá é a parte mais valiosa de si, memórias, afetos, primeiras emoções. Nunca saímos iguais de um relacionamento como esse. A gravação foi astral, todos são músicos incríveis, educados e gentis — até porque acho mentira que os melhores são os egocêntricos geniosos, pelo contrário. Pedro tirou uma sonoridade própria, gravando,como se diz, “no talo”, deixando o som ardido, e isso foi realçado na master do mestre Chico Neves, que teve uma escuta cuidadosa com essência da gravação e da mix do Pedro.

Desde o início, estava também a Clara Cosentino, minha prima linda,  diretora de vídeos sobre artistas da cena musical contemporânea e guitarrista do Cosmos Amantes. Ela registrou os ensaios, a gravação e o show que fizemos no Cine Jóia em setembro de 2015. Foi ela quem propôs fazermos um show antes do lançamento para que pudesse ter imagens de todo o processo, emsaios, gravação e show. O lance no Jóia deveria ser um evento especial, que travasse diálogo com o cinema. Eu amo Antonioni e achava que o disco tinha a ver com a leveza existencial a um só tempo questionadora de seus filmes, aquelas cenas do fotógrafo do Blowup com as modelos, os homens nus nas montanhas de Zabriskie Point ou a mulher de Eros. Além disso, me identifico com sua elegância clássica e experimentação de alta voltagem poética. A Cristina Amazonas fez as projeções incríveis, que são um baile de pixels sobre as imagens ao som da banda. Nesse show, cantei “Homens flores”, do Luís Capucho e do Marcos Sacramento, a canção mais linda que já ouvi — todos adoraram. Clara chamou o documentário sobre o processo de gravação do álbum de “Homens flores”. Fizemos um segundo show no Escritório, inferninho delícia no centro do Rio, desta vez eu e Capucho, e de novo “Homens flores” foi um sucesso; me dei conta de que a canção fazia tão parte do disco, que tínhamos chegado a um arranjo tão bom e dançante, tinha que estar dentro, a ponto de que se o disco não se chamasse Babies deveria se chamar Homens flores. Fizemos então uma sessão extra só pra gravá-la. Fiquei pensando na capa, achei que tinha que ter cor, azul, rosa, porque o som do disco pra mim era colorido; o anterior, Amarelo, tem capa PB com o torso de um corpo nu, esse tinha que ter cara e cor. E roupa, batom cor de sangue coagulado na boca, olho preto, que de resto era mais ou menos a maquiagem que vinha usando nos shows. Pedi ao Márcio Bulk para fazer a arte gráfica do disco, acho suas colagens finíssimas, ele fez também a direção de fotografia. O super Daryan Dornelles, com quem nós dois já havíamos trabalhado, topou fazer as fotos. A Dani Falcone chegou para fazer a maquiagem e a minha admirada amiga Lívia Nestrovski, que além de cantora diva da música brasileira contemporânea, é muito chique ela mesma, ajudou com o figurino. Me abriu o guarda roupa cheio de camisas lindas e fizemos a seleção juntos.

Meu filho de um ano e oito meses ainda não aprendeu a usar o polegar opositor. Dias antes da sessão, o vi comendo uva e metendo a mão inteira na boca, com a língua pra fora, achei uma imagem bonita, pensei, poderia ser o Mick Jagger em alguma capa de revista, assim transgressora, libidinal, porque nas crianças a sexualidade e a inocência ainda estão embebidas uma da outra. Numa sequência com o batom borrado, imitei o gesto dele. Quando chegaram as fotos, Márcio gostou de uma dessas, porque trazia uma ideia que havíamos discutido antes — a de que o instinto sexualmasculino (no caso os que têm desejo por mulheres) o faz desejar obsessivamente entrar pelo buraco de onde saiu, numa espécie de retorno símbólico ao ventre materno. Pensar nessa circularidade cósmica me deu vertigens e ficou na minha cabeça num loop meio macabro. Antes, Márcio havia sugerido usar a pintura de Courbet, “A origem do mundo”. A associação foi reveladora para mim: babies (até então mulheres, a partir daí bebês também), a sexualidade masculina, o orgão sexual e gerador feminino. Lembrei que no show do Jóia os meninos colocaram no repertório “Babies makin babies”, do Sly and the Family Stone; também que o disco está cheio de vocalizes que faço imitando meu filho cantar seus sons sem sentido e isso me fez reencontrar minha alegria de cantar de menino. Em alguma religião oriental, acredita-se que quando atingimos certo grau de sabedoria, a luz emana dos buracos do nosso corpo. pensei na letra do grande azul, descobri que brilho muito. Percebi que muitas canções do disco estão falando disso, da sexualidade em seu estado de pureza, de uma sabedoria própria de estar no mundo que pertence às crianças mas que pode ser até certo ponto reconquistada com esforço pelos adultos. Tudo foi ganhando um contorno inesperado. Como havíamos decidido não mais usar “A origem do mundo”, a foto com a mão na boca, infantil e sexual, e que lembrava o sexo da mulher, preencheu de outra forma o sentido latente desse grande mistério que é “bebês fazendo bebês” — nascimento, sexo, morte, amor: os absolutos a que me prendo e que entendo menos do que consigo sentir no corpo a força de vida.