É frequente ouvirmos que todo homem tem um lado feminino e toda mulher um lado masculino. Afinal, temos todos uma origem comum. Mas que origem é essa? Os homens imaginam histórias na tentativa de explicar o mistério.

Um

No começo o homem era macho e fêmea. A história do primeiro ser humano como um duplo faz parte do imaginário de diversas culturas. No Ocidente, nos chegou a partir de duas fontes principais: o mito do andrógino, que remonta à Grécia antiga, berço da nossa civilização, e o mito hebraico-cristão de Adão e Eva. No Banquete, de Platão, é contado que a princípio havia três espécies na terra: o homem, a mulher e o andrógino; este era uma espécie corajosa e forte de corpo, tinha duas cabeças, quatro braços, quatro pernas e dois orgãos de geração; pretendeu fazer guerra aos deuses e como castigo pela insolência, Zeus ordenou separá-lo em dois, “do mesmo modo que com um fio de cabelo se dividem os ovos para temperá-los com sal”. Há também vários indícios no Gênesis de que Adão, criado à imagem de Deus, reunia em estado psíquico elementos masculinos e femininos, segundo o princípio da harmonia universal do uno, que é composto de dois. Também era portanto um andrógino. A essa altura, possuía uma sexualidade em estado primário, acasalando-se com os animais (não por outro motivo os havia nomeado, pois o desejo por algo implica nomeá-lo). Também por isso surge a necessidade de diferenciação. Assim, no Jardim do Éden, não tendo Deus encontrado parceira a par de Adão, cria finalmente a mulher a partir de sua costela: “E disse o homem, esta desta vez osso de meus ossos e carne de minha carne; a esta chamarei mulher.”

Dois

Pois entre o homem e a mulher o desejo. Agora partes separadas, não cessavam de buscar a metade perdida. Quando se encontravam, lançavam-se aos braços um do outro até morrer de fome. Compadecido com a extinção da raça, Zeus transpôs os orgãos genitais para a frente, pois até então os andróginos concebiam e geravam sozinhos; dessa forma o homem e a mulher passaram a reproduzir. Adão e Eva ainda estavam no paraíso. A serpente deu voltas em Eva e a fez comer o fruto da árvore do conhecimento; disse: “Morrer não morrereis, pois sabe Deus que no dia em que dele comerdes se abrirão vossos olhos e serão como deuses.” A árvore era uma delícia para os olhos da mulher e ela acabou por ceder à tentação; também deu de comer ao homem. Abriram-se então os olhos dos dois e descobriram-se nus. A perda da inocência.

O retorno ao um

O homem e a mulher irradiam dos orgãos sexuais um magnetismo que, mais forte do que a razão, traz à superfície das convenções sociais a dimensão do interdito que está na origem da queda foi por desobedecer aos deuses que os andróginos foram separados em dois, foi porque Adão e Eva comeram da árvore do conhecimento e antes que comessem da árvore da vida e vivessem para o eterno-sempre, que acabaram expulsos do paraíso. O homem desejou a imortalidade dos deuses e como castigo foi condenado à solidão. Nascemos e morremos sozinhos e entre nós um abismo insondável. Mas o sentimento de finitude não nos é suportável; por isso, desejamos a fusão com o outro numa tentativa desesperada e inútil de retorno ao um originário. A nudez — a abertura dos corpos através de seus canais perturba a ordem; instaura um estado de violência, descontrole e perda de si. Daí a metáfora do orgasmo como “la petite mort”, pois para Georges Bataille o desejo de fusão só pode encontrar sentido na morte: haveria um momento durante a reprodução em que o espermatozóide e o óvulo, enquanto seres no estado elementar de finitude, se uniriam para a formação de um novo ser a partir da extinção dos seres separados. Esse novo ser traria inscrito em si a marca da fusão mortal.

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Até os dez primeiros dias de gestação não há distinção entre o orgão genital masculino e feminino. A glande e o clitóris possuem uma estrutura equivalente; a depender dos genes determinados no momento da concepção o pênis e a vagina se desenvolvem pela presença ou ausência de andrógenos. Fora da barriga da mãe, caídos nas horas, meninos meninas extasiados continuarão a busca sem nexo do eterno um.

Por Marcos Lacerda

O novo disco de Bruno Cosentino, Corpos são feitos pra encaixar e depois morrer, dá continuidade às suas experimentações de som pop sofisticado junto a uma poética do corpo, como fizera em Amarelo, seu álbum de estreia. Por poética do corpo entendamos uma poética voltada para a relação concreta e sensível entre o sujeito e o Outro, mediada sempre pelo desejo em dois movimentos: impulso para-fora e retorno para si. Entre a necessidade desesperada de dispersão e a intensidade do desejo de amparo e resguardo de si.

Na abertura do disco, a primeira canção, “É claro que eu queria”, tem como tema o desejo de permanência no Outro para além do sexo (“é claro que eu queria você só pra mim”), entendido aqui como instante de encontro real, sentido na pele (“apertamos nossos corpos com vontade”), como presença inscrita no corpo (“o cheiro no meu dedo ainda é muito forte”).

Em “Sou frágil”, o sujeito da canção prefere ser muitos, se perder nos corpos de muitos outros, num processo radical de despersonalização (“eu quero morrer em outros corpos”); existir numa variação de seres que habitam o limiar da transgressão (diaba, tirana, bárbara, pária), vivendo numa dimensão plurissexual, “como um bicho no cio/ uivando pra lua” e que deseja ardentemente homem e mulher (“eu quero a mão do meu homem/ e o mel da mulher”), sempre como sensação real no corpo (“rio grito mordo/ doida de prazer”).

Se na primeira canção o desejo de fusão com o Outro é dito num tom de quem quer viver uma relação a dois, doce e amena, e na segunda o sujeito da canção se despersonaliza radicalmente e se transforma em figurações transgressoras e andróginas, na terceira, uma regravação de “Tem que ser você” (Caetano Veloso), o tom é de afirmação e separação, sem qualquer forma de indiferenciação entre os gêneros (“tem que ser você/ tem que ser mulher/ tudo no lugar certo”). Ainda que admitindo a possibilidade de beleza no enlace homoerótico (“e homens, o amor-mentira/ pode ser tão bonito”), as coisas aqui precisam estar “no lugar certo” (“tem que ser a flor/ tudo tem sua fonte”). A fonte certa, no tempo certo, do acaso de Deus e da precisão do querer.

Em “Obs.” (com Pedro Carneiro) a morte e a vida se associam ao ato sexual (“morrer entrar nascer sair”) e ao impulso permanente de retorno à origem, de desprendimento e soltura de si no mundo (“querer entrar entrar/ de novo sair”). A saída do corpo no nascimento é vivenciada como tentativa de retorno (“querer entrar por onde saí”). O eterno retorno, a fusão com a totalidade que associa vida e morte num círculo (“tudo é circular”), no movimento do tambor tocado ao fundo. O mesmo tambor de “Três”, que homenageia o nascimento de Antonio, o seu filho.

Soa bonita e estranha a canção “Anti-história”. A melodia embala suavemente e sugere uma temática mais amena. Não é o que aparece. Fala-se em democracia do ocidente, tiranos, curva decadente da humanidade, riso que não reconcilia, tudo dito assim, como que jorrando. O desencontro entre o que a melodia sugere e o que diz a letra causa uma sensação de deslocamento, como impossibilidade de fusão, agora num plano formal. Letra e melodia se observam com estranhamento, como corpos que não se encaixam e não se reconciliam.

O nascimento reconcilia. O sexo movimenta o desejo, entre despersonalização e retorno a si. Aquilo que entra e sai e quer de novo entrar e sair entre os limites do real e a dispersão devassa do prazer. Repouso e aceleração. Movimento e tensão. Necessidade de deslocamento. Apreensão da realidade concreta e sensível. Tudo valendo pelo sexo no centro, como diz sutilmente em “Meu bem” (“não tenho jeito/ o gosto líquido/ teu sexo”). A maturidade poética, formal e existencial da canção. Saber vivenciar a intensidade das coisas. A sua leveza melancólica sintetiza bem o sentido deste álbum, recheado daquela doçura da vida que nos enche de uma alegria secreta, mesmo em meio ao desejo bambeando entre o nascimento e a morte.