Bruno Cosentino apresenta as canções de seu primeiro disco solo, “Amarelo”, ao lado de canções de outros autores. O disco e o show têm como tema central as movimentações ásperas e suaves, densas e supérfluas do encontro com a beleza que se expressa tanto na transcendência do rosto de alguém cuja aparição súbita nos causa um misto de alumbramento e angústia, quanto na feição terra-a-terra, aveludada, do mundo sublunar da carne, da pele, do atrito dos corpos que se encontram e se entendem na imanência frugal e fugaz do enlace criador, vital e enigmático do sexo. Os afetos se misturam às cores, palavras e paisagens da cidade; são como extensões do próprio corpo que atravessam pessoas, ruas, mares, praias, pontes, viadutos, cafés, sonhos e sons. Mas o contato com a beleza não é feito de amenidades: “Aquele que viu a beleza de frente já foi confiado à morte”; do mesmo modo que o ato de escrever e fazer canções nunca é um ato gratuito, que não possa ferir o sentido das coisas e das relações com um outro que nunca se dá como plenitude porque é ausência na presença esquiva e insinuante de si: “o erotismo é a aprovação da vida até na morte”.

Por Marcos Lacerda

O novo disco de Bruno Cosentino, Corpos são feitos pra encaixar e depois morrer, dá continuidade às suas experimentações de som pop sofisticado junto a uma poética do corpo, como fizera em Amarelo, seu álbum de estreia. Por poética do corpo entendamos uma poética voltada para a relação concreta e sensível entre o sujeito e o Outro, mediada sempre pelo desejo em dois movimentos: impulso para-fora e retorno para si. Entre a necessidade desesperada de dispersão e a intensidade do desejo de amparo e resguardo de si.

Na abertura do disco, a primeira canção, “É claro que eu queria”, tem como tema o desejo de permanência no Outro para além do sexo (“é claro que eu queria você só pra mim”), entendido aqui como instante de encontro real, sentido na pele (“apertamos nossos corpos com vontade”), como presença inscrita no corpo (“o cheiro no meu dedo ainda é muito forte”).

Em “Sou frágil”, o sujeito da canção prefere ser muitos, se perder nos corpos de muitos outros, num processo radical de despersonalização (“eu quero morrer em outros corpos”); existir numa variação de seres que habitam o limiar da transgressão (diaba, tirana, bárbara, pária), vivendo numa dimensão plurissexual, “como um bicho no cio/ uivando pra lua” e que deseja ardentemente homem e mulher (“eu quero a mão do meu homem/ e o mel da mulher”), sempre como sensação real no corpo (“rio grito mordo/ doida de prazer”).

Se na primeira canção o desejo de fusão com o Outro é dito num tom de quem quer viver uma relação a dois, doce e amena, e na segunda o sujeito da canção se despersonaliza radicalmente e se transforma em figurações transgressoras e andróginas, na terceira, uma regravação de “Tem que ser você” (Caetano Veloso), o tom é de afirmação e separação, sem qualquer forma de indiferenciação entre os gêneros (“tem que ser você/ tem que ser mulher/ tudo no lugar certo”). Ainda que admitindo a possibilidade de beleza no enlace homoerótico (“e homens, o amor-mentira/ pode ser tão bonito”), as coisas aqui precisam estar “no lugar certo” (“tem que ser a flor/ tudo tem sua fonte”). A fonte certa, no tempo certo, do acaso de Deus e da precisão do querer.

Em “Obs.” (com Pedro Carneiro) a morte e a vida se associam ao ato sexual (“morrer entrar nascer sair”) e ao impulso permanente de retorno à origem, de desprendimento e soltura de si no mundo (“querer entrar entrar/ de novo sair”). A saída do corpo no nascimento é vivenciada como tentativa de retorno (“querer entrar por onde saí”). O eterno retorno, a fusão com a totalidade que associa vida e morte num círculo (“tudo é circular”), no movimento do tambor tocado ao fundo. O mesmo tambor de “Três”, que homenageia o nascimento de Antonio, o seu filho.

Soa bonita e estranha a canção “Anti-história”. A melodia embala suavemente e sugere uma temática mais amena. Não é o que aparece. Fala-se em democracia do ocidente, tiranos, curva decadente da humanidade, riso que não reconcilia, tudo dito assim, como que jorrando. O desencontro entre o que a melodia sugere e o que diz a letra causa uma sensação de deslocamento, como impossibilidade de fusão, agora num plano formal. Letra e melodia se observam com estranhamento, como corpos que não se encaixam e não se reconciliam.

O nascimento reconcilia. O sexo movimenta o desejo, entre despersonalização e retorno a si. Aquilo que entra e sai e quer de novo entrar e sair entre os limites do real e a dispersão devassa do prazer. Repouso e aceleração. Movimento e tensão. Necessidade de deslocamento. Apreensão da realidade concreta e sensível. Tudo valendo pelo sexo no centro, como diz sutilmente em “Meu bem” (“não tenho jeito/ o gosto líquido/ teu sexo”). A maturidade poética, formal e existencial da canção. Saber vivenciar a intensidade das coisas. A sua leveza melancólica sintetiza bem o sentido deste álbum, recheado daquela doçura da vida que nos enche de uma alegria secreta, mesmo em meio ao desejo bambeando entre o nascimento e a morte.

Amarela, em tons de ouro, é a luz do fim de tarde. Luz tenra, que delineia formas e volumes com mãos delicadas, revelando cores e matizes quentes, texturas afetivas. É nesse amarelo que penso quando ouço o álbum de Bruno Cosentino, que traz como título o nome da mesma cor. Amarelo entrevisto de “altas varandas”, como nos versos de Duas pétalas. Cada canção é um ambiente a ser iluminado pela voz de Bruno, com sua qualidade branda diluindo suavemente os contrastes. Seu canto macio amortece o impacto de cada palavra cantada, cercando-a numa teia de cuidado. As baladas que embalam o álbum são como fotografias que trazem uma ambiência levemente esfumaçada.

A sensação é de que estamos num ambiente interior, protegido, que se comunica com o exterior não de modo direto, mas por membranas – membranas que filtram o que vem de fora. Em tal atmosfera de acolhimento, os afetos sutis saltam ao primeiro plano. Os acontecimentos mais banais ganham relevância: o silêncio contrariado do amante (“Cheio de si…lêncio-grito”) resvala em profundos questionamentos afetivos (“Qual de nós amou e foi amado? / Sentiu deus num átimo?”); o singelo amarelo do umbigo flerta com a dimensão da eternidade; lábios transformam-se em pétalas vermelhas que vagueiam pela noite de São Paulo; as doces obrigações do amor escorrem nas águas da Baía da Guanabara, ou na transpiração do sexo, na lembrança de que “podemos morrer pela cintura”.

Mesmo os temas mais espinhentos não estão ausentes do disco; apenas são redimensionados em seu fluxo sereno. O sexo, a morte, as angústias metafísicas, as dúvidas e hesitações, as inseguranças do amar e saber-se amado – tudo vai sendo abarcado por uma atmosfera mais ampla de gratificante beleza. E tal atmosfera será sentida, sobretudo, na pele. A pele que sente a dor é também a pele que sente o veludo da carícia. Amarelo é um disco que soa próximo, perto de nós; que se coloca no ponto preciso da iminência do contato físico – entre a contemplação e a ação, entre o olhar e o toque. Os elementos que compõem seu universo sonoro apontam para essa proximidade, para essa qualidade tátil – das peles da percussão aos timbres de guitarras e cordas, passando pelo som da madeira do violão.

Como na famosa divisa de Baudelaire, em Amarelo “tudo é luxo, calma e volúpia”. A tranquilidade é recolhida no seio da paixão. Ruídos e distorções se apresentam nos arranjos para depois recuar diante do canto sereno de Cosentino, ressaltando-o por contraste. Dele emanam as cálidas cores e afetos que sentimos ao ouvir o disco. Amarelo é, em seus diversos matizes, a cor desse canto. Canto que nos transporta em devaneios mundanos, ora distantes no deserto, ora no aconchego do umbigo.

  1. Tarde

Esta canção é uma canção curta. Ela e “Amor a quanto obriga”, quando as compus, pretendia que fossem uma só; os acordes são os mesmos, a temática também, mas não deu. Escolhi então colocá-las juntas na forma de dístico; acaba uma e começa a outra. Vamos rodar um clipe em que elas estarão juntas também. Ela tem uma letra meio cifrada, deserto, umbigo, amarelo. Me traz a cor amarela. Aliás, iria se chamar “Amarelo”. O nome “Tarde” eu peguei do livro do poeta Paulo Henriques Britto. Adoro o nome. Queria muito que tivesse a participação do Arto Lindsay nessa faixa e ele topou. A guitarra dele tem pra mim um impacto estético fulminante e funciona na canção como uma lâmina atravessando a suposta harmonia dela; é pra soar mesmo como uma pessoa atravessando a outra, duas existências querendo o impossível e doloroso de se tornar uma.

  1. Amor a quanto obriga

Como eu disse, ela forma um díptico com “Tarde”. A temática é a mesma: a ferida de amar e ser amado. Ter que se dar, abdicar voluntariamente do nosso império individual. Ao mesmo tempo, acredito que seja uma revelação religiosa sem deus. Porque se revela o que nós somos não a partir da solidão mas a partir da outra pessoa. Esse título eu tirei de um poema do Eucanaã Ferraz, que por sua vez tirou (ele não tem certeza) de um poema de Camões. A canção traz imagens do Rio de Janeiro, minha cidade, lugares que costumo frequentar, o Parque do Flamengo, com aquela rocha do Pão de Açúcar, que parece um monolito à minha frente, a entrada da baía de Guanabara. Tem essa junção de um estado amoroso com uma pessoa e com a cidade, com a pessoa na cidade.

  1. Preciso aprender a não ser

Ainda na linha da ferida aberta, esta canção é mais raivosa. Ela é um pouco um “chega pra lá”, tipo “tô em silêncio e me deixa quieto”. É a letra de que mais gosto. Tem essa brincadeira no título com a canção do Marcos Valle e também com a resposta do Gilberto Gil a ela e a minha desdizendo as duas. Além disso, tem ecos da minha leitura de Marina Tsvetaieva, do Nature Boy, “qual de nós amou e foi amado”, e dessa coisa bonita que não sei de onde vem, que é a “saudade de não sei quem”, uma saudade primordial, a melancolia em estado puro. Esse disco é um disco muito melancólico. Todo ele. Uma melancolia que eu também identifico ao Rio de Janeiro. Ela se parece com a neblina da cidade. Por isso, embora suave (que é) – sua característica -, não deixa de ser profunda, como tudo o que é verdadeiro.   

  1. Sem pecado

“Sem pecado” fala do desejo, do magnetismo dos corpos, do que está para além das convenções sociais. Gosto da melodia dela. No arranjo, quis que tivesse a acentuação no segundo tempo do compasso, apesar de não ser um samba, mas para dar essa síncope nuclear, concentrada do surdo de primeira. Muniz Sodré escreveu um livro maravilhoso que se chama “O dono do corpo”, falando da síncope do samba. O tempo forte do compasso fica vazio e temos a necessidade de preenchê-lo com o corpo. Daí ser o samba um gênero que nasce indissociado da dança. Essa canção fala justamente desse espaço vazio, interdito, querendo ser preenchido pelos corpos, para em seguida suspendê-lo como um monumento, como anti-história.

  1. Duas pétalas vermelhas

É uma canção com a mesma temática de “Sem pecado”. A cidade estava no verão. Todo mundo transpirando muito, com sal no ar e no corpo. Estava lendo poesia japonesa, uma edição traduzida pelo Haroldo de Campos, linda. Quis fazê-la toda com paralelismos, “sua boca”, “minha boca”, “seus lábios”, “seus olhos”, “meus olhos” e por aí vai. Ela é cheia de metáforas e depois percebi que fala muito do aqui agora, da relação com o lugar e o momento. Essa é uma importante questão pré-socrática. Me identifico com ela. E ainda tem na letra o rio (a cidade, mas também o fluxo de água doce), aquela coisa do Heráclito de que não se pode banhar duas vezes em águas repetidas. Eu chamei o Marcos Lobato pra fazer as guitarras e um piano elétrico e ele deu a cara do arranjo. Eu amo o Lobato – a pessoa e o músico. Ele tinha produzido uma faixa do Cazuza, que gravei pra coletânea “Projeto Agenor”, do DJ Zé Pedro e da Lorena Calábria, e quis repetir. Adoro o vocalzinho no final, com backing luxuoso da cantora Michele Leal e do sub-grave do Bartolo.

  1. Respira

Estava no vagão do metrô e não sei porque, mas depois percebi isso em outras músicas, e também as pessoas me contavam, que os trens do metrô são altamente excitáveis sexualmente (tem aquela música do Antonio Cicero, Waly e Caetano, “jogo rápido, lingua ligeira olhos arregalados”, “nos flancos de um trem de metrô”, “Grafitti”); enfim, parece que rola essa tensão sexual no vagão do metrô; não posso nem imaginar o motivo; mas escrevi essa letra direta e sem rodeios. Eu não curto tanto ela, mas gosto da sacada da letra e acho que tem um dos versos mais bonitos do disco, “podemos morrer pela cintura”, de influência direta do poeta português Eugénio de Andrade, que é pura sensualidade. Tem também, como em outras músicas, a metáfora do orgasmo como morte.

  1. Por que

Essa canção é a única do disco que não é minha. É uma canção do segundo disco do Otto, que desde que a ouvi, faz tempo, fiquei com ela na cabeça como uma canção de melodia e letra bem bonitas. Tem esse início que acho uma obra prima, “por que você me quer assim triste e traiçoeiro, se eu posso dividir meu corpo e meu amor?”. Mas na gravação do Otto a melodia não está tão em evidência. Ele não cantava muito bem nessa época e o arranjo dele também não realça isso, fica mais numas texturas rítmicas eletrônicas que eram moda na época da gravadora Trama, onde ele gravou. Acho as imagens das mãos, “seus dedos”, “vou esquentar os pães”, de um calor da intimidade muito expressivo. Enfim, acho esta canção muito bonita e tem tudo a ver com as outras do disco, por isso quis gravá-la. Além de eu ter uma vontade cada vez maior de gravar músicas de outros compositores, misturadas às minhas, nos meus discos.

  1. Pra que perder tempo

Essa é uma canção que fiz quando estava fazendo um show em Belém do Pará. Tinha brigado por telefone. E fiz esses versos bem sintéticos. Tem de novo o lance, ainda mais evidente, da relação do orgasmo com a morte. Sinto que quando brigo com minha mulher é como se isso fosse se somando subjetivamente no total de nossa vida juntos como momentos ruins, enfim, momentos em que não gozamos, não temos prazer neles. Sei que as brigas são necessárias, mas muitas vezes dá pra não brigar, é perder tempo. Então fico brincando com isso, gozar a vida e gozar do orgasmo. Algumas pessoas vieram me falar que adoraram essa música. Eu não esperava muito dela, apesar de adorar o arranjo; tem a guitarra do Pitter Rocha com uma afinação africana oriental que é linda.

  1. Este lugar

Fiz esta canção a partir de uma conversa entre mim, minha mulher e um amigo deitados no Aterro. Existiam ali do nosso lado umas palmeiras que dão flor de cinquenta em cinquenta anos e morrem em seguida. Ela estava dando flor na época. Depois de um tempo desse nosso encontro, passei por lá e vi que o tronco da palmeira estava caído, sem a copa, parecia um pau mole. Foi umas das primeiras melodias que fiz e por causa dela pensei em fazer o disco. Foi pensando em fazer melodias simples como essa que fiz as outras canções. Acho que ela representa bem o que gostaria de ter alçançado com o disco. Canções simples, num estado de decantação que soasse bem aos ouvidos, mas que não fossem banais. Essa é a minha aspiração máxima na música. Fazer com que as canções entrem na cabeça das pessoas sem dificuldade, mas com alguma aspereza que não as façam soar como mera diluição, daquelas que a gente ouve uma vez, canta sem parar e depois não quer ouvir nunca mais.

  1. Dois

Esta canção eu fiz na noite em que minha mulher viajou pra passar três meses fora. Foi a primeira vez que nos separamos por um período maior. Fiquei muito triste e preocupado e me senti sozinho. É uma música que é uma indagação, como outras do disco aliás, uma grande interrogação sobre a possibilidade de se viver junto. Acredito que essas perguntas devem nos rondar sempre, porque são elas que vão fazer a gente seguir em frente sempre lúcido, sem nos enganar; porque é muito fácil cair na armadilha do casamento feliz e acho que esse é o pior dos erros. Pra citar Odair José, “felicidade não existe, o que existe na vida são momentos felizes”. E precisamos gozá-los.

Na última sexta-feira, os Racionais MC’s se apresentaram pela primeira vez na zona sul do Rio de Janeiro, num evento chamado “Menina Leblon”. Nada mais contrário a um grupo cuja aversão agressiva aos playboys é conhecida. Acontece que de uns anos pra cá, os manos vêm fazendo shows em festa de gente rica em São Paulo; Mano Brown protagonizou um comercial da Nike; Edi Rock foi divulgar seu disco solo na TV Globo. Uma coisa chama a atenção: parece que eles estão ali sempre a contra-gosto. Em vídeo disponível na Internet, Luciano Hulk pega Edi Rock no hotel e a bordo da sua carroça estilizada puxa o saco dos Racionais, mas recebe de volta um sorriso de escárnio de Edi Rock, que não consegue disfarçar em nenhum momento a cara de contrariado (como se estivesse sendo forçado àquilo). Mano Brown, por sua vez, se justifica dizendo que cobrou um valor alto para participar do comercial e pegou toda a grana para investir na Blue House, casa onde produzem artistas da “música negra” brasileira. Nas festas de playboy, a mesma coisa: entram no palco tarde da noite, alteram as letras, fazem um show mais curto, cantam de má vontade.

A pergunta é: por quê fazem então? Se aceitam voluntariamente os convites, por que estão sempre contrariados? Não seria melhor bancar a decisão? O argumento de Brown é que se a grana que entra é revertida para o coletivo, eles estão abertos à negociação; porém, a negociação é dura, claro! Afinal, nunca pediram nada pra ninguém e, depois de tantas negativas, estão numa posição privilegiada para barganhar. Segundo Brown, todas as decisões são deliberadas em “família”, isto é, entre as pessoas que compõem o grande grupo dos Racionais: produtores, músicos, amigos etc.; respeitando, contudo, as opções individuais. Se Brown quer usar tênis Nike, ele usa; se Edi Rock quer ir ao Caldeirão, ele vai; mesmo que um e outro não compartilhem da mesma opinião. Brown diz no programa Roda Viva que se existe uma pessoa contraditória, essa pessoa é ele mesmo.

O momento de enfrentar o mercado é crucial – e pode ser fatal – na vida do artista. A maioria se dá mal. A música essencialmente nada tem nada a ver com o mercado. Obedecem inclusive a duas lógicas irreconciliáveis. A racionalidade econômica é padronizadora, a racionalidade do artista é singular, libertadora (e por isso contestadora do status quo). Na década de 60, época em que os artistas da MPB eram joguetes de festival da canção (o diretor da Record, Paulinho de Machado, disse que pensava os festivais como espetáculos de luta livre: “tinha o mocinho, o vilão, a heroína, etc.”), a tensão entre as duas lógicas veio à tona, criando inclusive um racha, como é sabido, entre a MPB e a Jovem Guarda. Os tropicalistas se colocaram no meio e passaram para a história como aqueles que conseguiram superar tal impasse. Superar o impasse significou, nesse caso, agir dentro da estrutura do mercado (gravadoras, rádio, televisão) de modo crítico, assumindo uma postura contraditória mas ativa. Na véspera de Natal, por exemplo, Caetano chegou a cantar “Noite feliz” na televisão apontando uma arma para a cabeça.  

Acontece que o tempo passou e a lógica de mercado triunfou, não deixando margem de manobra. Hoje, ela vive seu esplendor no mundo intangível do capital financeiro, onde os objetos desapareceram, inclusive os discos de música. Os Racionais surgiram já nessa época. Talvez por isso, não precisaram enfrentar o bicho grande, porque, como se diz no jargão do mercado, já possuíam um público consumidor, composto pelos “um milhão de manos” das periferias de São Paulo. Criaram um mercado próprio: gravação, comercialização, shows etc. Hoje, consagrados, ensaiam uma abertura para o mercadão. Querem colher o fruto do seu trabalho. O risco, como sempre, é o da captura. E eles estão cientes disso. Um show para playboys num evento chamado “Menina Leblon” – apesar da categoria “classe social” não servir de nada para pensar a música – contém o risco de tirar a potência dos Racionais, que não podem ser facilmente dissociados de uma ideologia e de um contexto sócio-econômico específicos. E é justamente isso que sempre restringiu suas possibilidades de trabalho (diferentemente do samba, o “Rap é compromisso”, já dizia Sabotage). O que querem agora então é ampliar o mercado. Só que tal abertura, como não poderia deixar de ser, é motivo de tensão máxima. Os Racionais são hoje sujeitos cindidos. Tomam uma decisão de modo consciente e no entanto a fazem a contra-gosto; postura que poderia parecer frouxa (de quem não está convencido de sua decisão), mas que revela a complexidade de suas personalidades, pois assumem as contradições e as levam às últimas consequências: o próprio ato. Afinal, parece que eles precisam enfrentar o mercado.

Essa posição contraditória já foi ocupada na música brasileira por Caetano Veloso. Suas declarações movediças, somadas a sua inteligência e a sua personalidade pública exuberante, sempre foram uma afronta ao senso comum. Nos últimos anos, no entanto, parece mais uma caricatura de si mesmo. Em suas entrevistas, não pode faltar uma ou outra frase obscura, acompanhada de uma lista de nomes postos em combinação insólita – uma fórmula que já perdeu o efeito. Não há mais tensão, mas evasão. Com o álibi do personagem camaleônico, troca de opinião ao sabor do vento. Foi assim com o #procure saber. Ele sempre está, mas não está. Sempre é levado não sabe muito bem onde, por quem ou por quê. Foi assim quando apareceu vestido de black bloc estampado nos jornais. Com isso, procura passar a imagem do homem complexo, dividido, oblíquo.

Mas como eu posso acreditar nisso, se tudo parece mais uma estratégia de autopromoção ou um instrumento para assegurar a manutenção de certos privilégios dele e dos seus? Assim, ao mesmo tempo que defende indignado a irmã Maria Bethânia contra a imprensa que lhe censurou o uso de dinheiro público para financiar a produção de vídeos com leituras de poemas, se entrega a uma docilidade senil (e faz o desserviço de utilizar sua coluna num jornal de grande circulação) ao afirmar sem vergonha que, apesar de todos os problemas relacionados à Copa do Mundo, o que ele quer mesmo é “ser feliz”. Como se alguém pudesse ser realmente feliz enquanto milhares de pessoas pobres têm suas casas destruídas a marretadas pelo Estado com o objetivo de aumentar o lucro de empresários e políticos.

O homem contraditório, que contém em si multidões (como disse o poeta Walt Whitman), faz ganhar vulto a dimensão política, isto é, um espaço de conflito em que nada está definido de antemão, porque tudo está em disputa; e que – utopia (abaixo a rational choice!) – o bem do coletivo prevalece ao individual. A luta do artista não é somente contra o mercado, mas contra qualquer tipo de convenção que lhe seja empurrada goela abaixo. No fim, não tem jeito, o jogo vai estar sempre perdido. Só não pode ser de sete. Mano Brown está agora gravando canções de amor para o seu disco solo, Boogie Naipe. Nada de anormal para quem cresceu ouvindo Marvin Gaye, Jorge Ben e Guilherme Arantes. Assim como a música, o amor (ainda) não é privilégio de classe.