Racionais irracionais – Revista Roda

Na última sexta-feira, os Racionais MC’s se apresentaram pela primeira vez na zona sul do Rio de Janeiro, num evento chamado “Menina Leblon”. Nada mais contrário a um grupo cuja aversão agressiva aos playboys é conhecida. Acontece que de uns anos pra cá, os manos vêm fazendo shows em festa de gente rica em São Paulo; Mano Brown protagonizou um comercial da Nike; Edi Rock foi divulgar seu disco solo na TV Globo. Uma coisa chama a atenção: parece que eles estão ali sempre a contra-gosto. Em vídeo disponível na Internet, Luciano Hulk pega Edi Rock no hotel e a bordo da sua carroça estilizada puxa o saco dos Racionais, mas recebe de volta um sorriso de escárnio de Edi Rock, que não consegue disfarçar em nenhum momento a cara de contrariado (como se estivesse sendo forçado àquilo). Mano Brown, por sua vez, se justifica dizendo que cobrou um valor alto para participar do comercial e pegou toda a grana para investir na Blue House, casa onde produzem artistas da “música negra” brasileira. Nas festas de playboy, a mesma coisa: entram no palco tarde da noite, alteram as letras, fazem um show mais curto, cantam de má vontade.

A pergunta é: por quê fazem então? Se aceitam voluntariamente os convites, por que estão sempre contrariados? Não seria melhor bancar a decisão? O argumento de Brown é que se a grana que entra é revertida para o coletivo, eles estão abertos à negociação; porém, a negociação é dura, claro! Afinal, nunca pediram nada pra ninguém e, depois de tantas negativas, estão numa posição privilegiada para barganhar. Segundo Brown, todas as decisões são deliberadas em “família”, isto é, entre as pessoas que compõem o grande grupo dos Racionais: produtores, músicos, amigos etc.; respeitando, contudo, as opções individuais. Se Brown quer usar tênis Nike, ele usa; se Edi Rock quer ir ao Caldeirão, ele vai; mesmo que um e outro não compartilhem da mesma opinião. Brown diz no programa Roda Viva que se existe uma pessoa contraditória, essa pessoa é ele mesmo.

O momento de enfrentar o mercado é crucial – e pode ser fatal – na vida do artista. A maioria se dá mal. A música essencialmente nada tem nada a ver com o mercado. Obedecem inclusive a duas lógicas irreconciliáveis. A racionalidade econômica é padronizadora, a racionalidade do artista é singular, libertadora (e por isso contestadora do status quo). Na década de 60, época em que os artistas da MPB eram joguetes de festival da canção (o diretor da Record, Paulinho de Machado, disse que pensava os festivais como espetáculos de luta livre: “tinha o mocinho, o vilão, a heroína, etc.”), a tensão entre as duas lógicas veio à tona, criando inclusive um racha, como é sabido, entre a MPB e a Jovem Guarda. Os tropicalistas se colocaram no meio e passaram para a história como aqueles que conseguiram superar tal impasse. Superar o impasse significou, nesse caso, agir dentro da estrutura do mercado (gravadoras, rádio, televisão) de modo crítico, assumindo uma postura contraditória mas ativa. Na véspera de Natal, por exemplo, Caetano chegou a cantar “Noite feliz” na televisão apontando uma arma para a cabeça.  

Acontece que o tempo passou e a lógica de mercado triunfou, não deixando margem de manobra. Hoje, ela vive seu esplendor no mundo intangível do capital financeiro, onde os objetos desapareceram, inclusive os discos de música. Os Racionais surgiram já nessa época. Talvez por isso, não precisaram enfrentar o bicho grande, porque, como se diz no jargão do mercado, já possuíam um público consumidor, composto pelos “um milhão de manos” das periferias de São Paulo. Criaram um mercado próprio: gravação, comercialização, shows etc. Hoje, consagrados, ensaiam uma abertura para o mercadão. Querem colher o fruto do seu trabalho. O risco, como sempre, é o da captura. E eles estão cientes disso. Um show para playboys num evento chamado “Menina Leblon” – apesar da categoria “classe social” não servir de nada para pensar a música – contém o risco de tirar a potência dos Racionais, que não podem ser facilmente dissociados de uma ideologia e de um contexto sócio-econômico específicos. E é justamente isso que sempre restringiu suas possibilidades de trabalho (diferentemente do samba, o “Rap é compromisso”, já dizia Sabotage). O que querem agora então é ampliar o mercado. Só que tal abertura, como não poderia deixar de ser, é motivo de tensão máxima. Os Racionais são hoje sujeitos cindidos. Tomam uma decisão de modo consciente e no entanto a fazem a contra-gosto; postura que poderia parecer frouxa (de quem não está convencido de sua decisão), mas que revela a complexidade de suas personalidades, pois assumem as contradições e as levam às últimas consequências: o próprio ato. Afinal, parece que eles precisam enfrentar o mercado.

Essa posição contraditória já foi ocupada na música brasileira por Caetano Veloso. Suas declarações movediças, somadas a sua inteligência e a sua personalidade pública exuberante, sempre foram uma afronta ao senso comum. Nos últimos anos, no entanto, parece mais uma caricatura de si mesmo. Em suas entrevistas, não pode faltar uma ou outra frase obscura, acompanhada de uma lista de nomes postos em combinação insólita – uma fórmula que já perdeu o efeito. Não há mais tensão, mas evasão. Com o álibi do personagem camaleônico, troca de opinião ao sabor do vento. Foi assim com o #procure saber. Ele sempre está, mas não está. Sempre é levado não sabe muito bem onde, por quem ou por quê. Foi assim quando apareceu vestido de black bloc estampado nos jornais. Com isso, procura passar a imagem do homem complexo, dividido, oblíquo.

Mas como eu posso acreditar nisso, se tudo parece mais uma estratégia de autopromoção ou um instrumento para assegurar a manutenção de certos privilégios dele e dos seus? Assim, ao mesmo tempo que defende indignado a irmã Maria Bethânia contra a imprensa que lhe censurou o uso de dinheiro público para financiar a produção de vídeos com leituras de poemas, se entrega a uma docilidade senil (e faz o desserviço de utilizar sua coluna num jornal de grande circulação) ao afirmar sem vergonha que, apesar de todos os problemas relacionados à Copa do Mundo, o que ele quer mesmo é “ser feliz”. Como se alguém pudesse ser realmente feliz enquanto milhares de pessoas pobres têm suas casas destruídas a marretadas pelo Estado com o objetivo de aumentar o lucro de empresários e políticos.

O homem contraditório, que contém em si multidões (como disse o poeta Walt Whitman), faz ganhar vulto a dimensão política, isto é, um espaço de conflito em que nada está definido de antemão, porque tudo está em disputa; e que – utopia (abaixo a rational choice!) – o bem do coletivo prevalece ao individual. A luta do artista não é somente contra o mercado, mas contra qualquer tipo de convenção que lhe seja empurrada goela abaixo. No fim, não tem jeito, o jogo vai estar sempre perdido. Só não pode ser de sete. Mano Brown está agora gravando canções de amor para o seu disco solo, Boogie Naipe. Nada de anormal para quem cresceu ouvindo Marvin Gaye, Jorge Ben e Guilherme Arantes. Assim como a música, o amor (ainda) não é privilégio de classe.