Escuta Bruno Cosentino

Entrevista publicada na revista Z Cultural, em fevereiro de 2019. Com mediação de Rafael Julião e Eucanaã Ferraz. 

Em 21 de setembro de 2017, Bruno Cosentino, um dos idealizadores do Núcleo de Estudos da Canção do PACC, da Faculdade de Letras da UFRJ, foi convidado a fechar o ciclo do primeiro ano de audições de discos de canção brasileira contemporânea, com seu álbum Corpos são feitos pra encaixar e depois morrer (2017). Na ocasião, conversamos sobre sua trajetória artística, os elementos estéticos e temáticos do disco, e também sobre questões como a natureza da canção, as questões do corpo e da sexualidade, as influências musicais, os problemas da criação artística e a inserção do artista no contexto musical contemporâneo.


Bloco 1 – O corpo

Escuta: “É claro que eu queria” (Bruno Cosentino)

Rafael Julião: Bruno Cosentino é cantor e compositor. Tem quatro discos: o primeiro, de 2012, é com a banda Isadora e se chama A eletrônica e musical figuração das coisas; depois Amarelo, de 2015; Babies, de 2016; e o que é assunto nosso hoje, Corpos são feitos pra encaixar e depois morrer, de 2017. Mas eu queria começar falando do percurso que levou você até o Corpos… Então, brevemente, eu queria que você voltasse à banda Isadora e me contasse como você foi parar nisso de gravar disco, de fazer banda, de cantar, enfim, de se descobrir como cantor.

Bruno Cosentino: Então, eu nunca tive banda. Muita gente começa a tocar porque tem banda. Eu sempre toquei sozinho, voz e violão. Só que, depois de um certo tempo, eu decidi ter uma banda, porque queria de fato assumir que queria fazer um trabalho assim. Aí, eu chamei uns amigos pra fazer uma banda, mas isso era mais velho, sabe, já tinha passado da época de ter banda. E foi uma grande descoberta fazer, tocar com banda. Achei difícil, porque eu e violão, eu tinha muito domínio. Porque era só eu ali e o violão. Até hoje, eu tenho um domínio muito maior, quando sou eu e o violão só. E foi muito prazeroso, foi uma descoberta tocar com banda. E foi essa banda que teve, gente que entrou, saiu e tal. Mas que a gente lançou esse disco. Chama-se A eletrônica e musical figuração das coisas; que é o meu primeiro disco, considero meu primeiro disco, meu mesmo também, porque eu fiz muita coisa desse disco.

RJ: E, aí, você passa e faz uma sequência bem anual: AmareloBabies, Corpos. Queria que você falasse do Amarelo. Enquanto primeiro trabalho solo. Você ficou três anos sem gravar disco, é isso?

Bruno Cosentino: Ah, então, aí, eu fiquei com a banda. Aí, eu fazia o disco, fiz o trabalho com a banda e aí a banda é complicado. Aí eu falei, vou fazer minha coisa sozinho. E também eu tinha vergonha, na época, de botar meu nome na cara. E, por isso, Isadora, era um nome que ficava na minha frente. E tinha medo, tinha vergonha também de botar minha cara na vitrine. E foi um movimento também pra isso… pra isso acontecer, assim… terapêutico, tipo, botar meu nome na cara e me mostrar mais mesmo.

RJ: É uma produção grande, AmareloBabies e Corpos, um por ano, e dá para ver, teoricamente, uma linha entre eles. Uma linha geral de coisas que se repetem, eu digo, de coisas que são suas. O Amarelo, teoricamente, tem uma coisa do amor, que paira em todos eles, como é comum no trabalho da canção popular… Mas o Amarelo, teoricamente, viria de uma ótica mais espiritual e haveria uma ótica do amor mais sublime. Não sei se sublime é a palavra. Você tem que dar a palavra. E o Babies você aterrissou e tem uma coisa mais de um amor mais visceral, terreno.

Bruno Cosentino: É, eu vejo assim: que o Amarelo é, tipo assim, “estou querendo fazer e não fiz”. O Babies é “fiz”. E o Corpos é “fiz e, aí, o que que eu achei?”. Entendeu? O Amarelo é mais sublimado. O Babies é menos. E o Corpos é menos ainda, eu acho. Mas uma coisa que eu percebi, quando eu fiz o Amarelo, antes da Isadora, no Amarelo, eu me dei conta de que eu queria fazer as letras e as músicas, assim, mesmo que piores. Porque até aí, eu musicava muitos poemas. Por exemplo, no Isadora tem dois poemas do Eucanaã. E são canções lindas. Tem um do Paulo Henriques Britto. Eu musicava muitos poemas, eu não fazia letra, assim, pá… eu queria realmente fazer letra. E, aí, foi uma experiência muito boa. Tanto é que agora tem letras que eu acho que eu não gosto nada, do Amarelo. E na época eu já também não gostava. Achava, assim, meio irregular, meio assim… Só que, ao mesmo tempo, eu precisei bancar isso, porque foi a primeira vez que eu escrevi coisas que de fato eu sentia. Por mais que isso pudesse ser precário e por mais que eu soubesse que ainda não tava, que ainda podia ser melhor, mas era eu fazendo. Mas sempre foi sincero. As letras que eu musiquei, os poemas que eu musiquei, em tudo ali existe uma identificação profunda. Mas com o Amarelo, foi como assim, mais do que identificação, eu sentia muito aquilo e, às vezes, eu não sabia nem explicar, mas eu sentia. Porque foi a partir de uma experiência pessoal muito intensa que foi, tipo, três, quatro anos depois que eu me casei. Então, foi uma mudança na minha vida muito grande, assim, emocional. Então, ele é fruto disso, na verdade.

RJ: É, e logo depois, isso era uma coisa que eu ia comentar. Você tem uma produção anual de disco. Você já tem 2015, 2016, 2017, você já está pensando em fazer um para 2018 ou é um momento de produtividade ou é pressa de expor?

Bruno Cosentino: Os dois. Ah, é pressa porque, em algum momento, eu sou mais da contenção, e eu gosto de ir contrariando o que eu sou. E eu era mais da contenção de só publicar aquilo que eu achava muito legal e tal. Depois, tentando fazer parte do meu tempo, em que tudo você publica muito rapidamente, tudo se esgota e tal, de forma muito rápida também… eu fui tendendo mais a uma produção de quantidade, sabendo que isso poderia me trazer qualidade também. E é assim que eu acho que acontece comigo, a cada disco que eu faço, eu sinto que eu estou melhor, que eu faço as coisas melhor. Eu vou ganhando experiência. Então, gravar disco pra mim é assim, eu sinto que é uma evolução artística. Por isso que eu gravo muito disco. E também porque eu descobri que eu posso cantar músicas de outros compositores. Não que eu já não soubesse disso antes, mas eu sempre fui cantor. De início, eu era só cantor. Até que, na época, quando eu era bem menininho, tipo, o Serginho Natureza, que é um compositor, Elis Regina já gravou música dele e tal. Tem umas canções bem conhecidas, ele é amigo da minha família e produziu um show meu. Escolheu um repertório superbacana, mas que não tinha nada a ver comigo. Foi um fiasco pra mim fazer aquele show. Eu nessa época já cantava bem. Era o que eu sabia fazer. Não compunha. Eu não gostei nada desse show, nunca mais fiz, porque eu queria mesmo compor. Então, essa coisa de gravar disco também, eu já consigo compor e gostar, mais ou menos, do que estou fazendo. Agora, eu posso cantar as músicas que têm a ver com meu universo… o Amarelo tem uma música só que não é minha, é do Otto, e eu gosto muito. No Babies tem muitas de outras pessoas. E nesse aí, último, tem menos, mas é um pouco mais variado. Tem de colegas de profissão da minha geração que vocês talvez não conheçam, porque não tá na televisão. Então, essa coisa de gravar disco, é isso. Eu sinto que eu melhoro muito. E eu gosto de gravar disco, pensar sonoridades, composições, e é mais fácil gravar disco do que era, então, por causa disso também.

RJ: E o Corpos, quando você estava no show do Babies, as músicas do Corpos já existiam? É com a mesma banda, não é isso?

Bruno Cosentino: Esse disco, meu segundo disco, Babies, eu gravei… e, em algum momento ali, quando fiz o show de lançamento, eu já sabia, eu já tinha ganhado um edital pra fazer um disco. Eu tinha prazo pra fazer esse disco. Então, fiz show de lançamento do Babies em maio e tinha que gravar esse disco até o final do ano. Então, não pude fazer shows do Babies. Eu tive que gravar esse disco. O tempo que eu tinha era pra ensaiar e gravar. Aí, eu gravei e agora estou fazendo um show que se chama Homens Flores, que é o nome de uma música do Luís Capucho e do Marcos Sacramento, que eu gravei no Babies e é um show que reúne o repertório dos dois discos anteriores.

RJ: O disco abre com uma citação que diz: “Como siempre, la duda es que hacer com el cuerpo?” De onde você tirou isso, o que é isso?

Bruno Cosentino: Tem uma música no Isadora, no meu primeiro disco, que se chama “Milagros de um dios menor”, que é um poema que eu musiquei de um colombiano, um poeta colombiano. Não nesse poema, mas no livro tem um outro poema que, em algum momento, diz assim: “como siempre, la duda es que hacer com el cuerpo?”. Só que, na verdade, no poema é literal. Existe um crime, matam a pessoa e, aí, tem a pergunta sobre o que faz com o corpo morto, com o defunto. Só que eu acho que destacado assim ganha uma outra dimensão, eu acho que bem mais bonita… [risos] porque, como sempre, a dúvida é o que que você vai fazer, o que que a gente faz com o corpo. E, aí, uma amiga minha equatoriana, ela gravou esse trecho, vários trechinhos desse poema e a gente inseriu nessa música lá do disco Isadora. Aí, eu lembrei e abri esse disco com essa frase, pedi pra ela regravar e botei.

Capas dos discos Amarelo (2015) e Babies (2016)
Capas dos discos Amarelo (2015) e Babies (2016)

RJ: Talvez, seja muito bom começar daí, porque me parece que o corpo tem uma centralidade grande no seu trabalho. Chega a se usar um termo no release que eu li de “poética do corpo”. Bom, no Amarelo, a capa é o torso dele, nu, o torso só. E, no show, você recita, entre outras coisas, o “Soneto do olho do cu”. No Babies, você começa o disco com uma música chamada “Electric fish” que tem um peixe elétrico nadando na boca. E, você tem versos como “corpos são azuis e nascemos nus e podemos dançar mar adentro”. No Homens flores, que você citou, tem “as colinas repletas de homens fortes”. Em Babies tem – abro aspas e cito – “se eu não sou mais que um caralho duro, fiquem sabendo que ele é a flor e o fruto, toda pureza do meu coração de homem mau”. No Corpos tem “eu quero morrer em outros corpos”, “corpos são feitos pra encaixar e depois morrer”. Eu queria que você comentasse essa centralidade do corpo.

Bruno Cosentino: É porque eu acho que o que existe de tensão mesmo é o que nosso corpo pede e o que nossa cabeça freia nosso corpo, que freia a todo momento…

RJ: Essa presença acintosa do corpo talvez seja uma espinha dorsal do seu trabalho de forma geral. Mas sempre de formas diferentes. Talvez esse seja um caminho. Esse corpo não se comportou igual ao longo desses discos, né?

Bruno Cosentino: É. Não. Então… no Amarelo eu acho que era um corpo mais retraído, assim, sabe? As coisas que tão aí me seduzindo no mundo. O que é que eu faço com isso? Não que isso tenha tido reflexo na minha vida pessoal. Eu estou falando assim no disco. Porque no disco eu posso fazer o que eu quiser. Essa é a grande liberdade, porque na vida real a gente não pode fazer o que quiser e eu não tenho vocação pra ser marginal. Embora eu transgrida as regras, as convenções, eu gosto de transgredir, mas sem fazer alarde. Então, nas músicas, eu falo o que eu quiser, eu faço o que eu quiser. E isso é uma grande liberdade pra mim, falar o que eu quiser, e fazer o que eu quiser ali dentro. Essa coisa do corpo é basicamente isso. A atração sexual, o não entendimento das coisas, sabe? Porque o corpo também é o não entendimento. Tipo, o movimento em direção ao que o corpo pede é você não entender o que você está fazendo. Então, eu quero muito não entender o que eu estou fazendo e quero muito tentar descobrir alguma zona mais hermética, mas que vibre. Que seja um hermetismo que fique vibrando, assim, como alguma zona de mistério. Aí, se descolar, se livrar da sintaxe, sabe, porque canção não tem nada a ver com sintaxe no fim das contas. É muito sensação. Então, ir mais para a sensação e sair do intelectual. Tem sido um trajeto que eu tenho feito; por estar na outra ponta, e quero ir pra essa ponta agora, do não entendimento…

Bloco 2 – Bicho, homem, mulher

Escuta: “Sou frágil” (Bruno Cosentino); 3. “Tem que ser você” (Caetano Veloso).

RJ: O Bruno pesquisa Vinicius de Moraes aqui na casa.  E eu fico pensando se “eu quero morrer em outros corpos” é parente de algum grau do verso “é que um dia em teu corpo, de repente, hei de morrer de amar mais do que pude”. O amor na sua obra tem algum parentesco com o amor de Vinicius?

Bruno Cosentino: Não, não sei nem explicar porque agora eu estou lendo muito Vinicius. O cara… não sei, não sei… eu vejo semelhanças não. Bom, entre mim e Vinicius há coisas parecidas e coisas muito diferentes… Então, se eu for falar sobre isso, é uma coisa que não tá nada elaborada. Eu não sei. Eu estudo Vinicius, estou lendo, estou pensando ainda as coisas.

RJ: Até uma das coisas que eu tinha colocado do Vinicius é daquela entrevista que a gente gosta, do Vinicius com a Clarice, em que ele fala que tem ciúme de bicho. E eu tinha pontuado aqui, se o ciúme aparece na sua obra ou se o ciúme é uma questão pra você…

Bruno Cosentino: Não era muito, não. Mas, agora, eu me lembrei disso. Você falou da entrevista. A Clarice fala assim: ah, você ama o amor ou você ama as mulheres? Que ele já se separou várias vezes e tal. Ele falou assim: “ah, eu amo o amor, é verdade que eu amo o amor, mas eu amo também as mulheres”. E eu fiquei pensando muito. Eu não amo nada o amor. Eu amo realmente as pessoas. Tanto é que eu não amo o amor… eu estudo isso, né [risos] mas eu detesto! Estudar o amor é muito sem sentido, na verdade. Eu descobri isso numa aula que eu fiz, e li teorias sobre o amor. É uma coisa que, claro, é teorizável e é teorizado e gosto de ler. Você teorizar a falta de sentido que há numa relação amorosa, quase isso. Você não consegue chegar lá, porque, no limite, é caso a caso, sabe? E cada caso é um caso. Então, é inútil ficar falando sobre isso. Por isso que eu não gosto nada do amor. Eu gosto, realmente, das pessoas. Gosto de amar as pessoas. E essa coisa de amar o amor, parece que vem de Santo Agostinho. E tem aquela coisa com Camões, que o amante se transforma na coisa amada… porque amar o amor, há um tanto de egoísmo e eu sou muito pouco egoísta quando o assunto é esse. Se eu amo uma pessoa, eu me importo muito com as pessoas que eu amo, muito mesmo. Então, eu vivo essa tensão muito constante entre o que que eu posso, até onde eu posso alimentar o meu egoísmo e não magoar as outras pessoas, entendeu?

RJ: Você tem versos como “o cheiro no meu dedo ainda é muito forte/ enlouquece minha cabeça de mulher”, a própria questão do “Sou frágil”, “Eu quero a mão do meu homem e o mel da mulher, meu desejo brilha no escuro”. No texto de apresentação do Corpos diz que além da “poética do corpo”, há uma proposta de uma nova masculinidade. E você faz deslizamentos, nesse sentido, entre o masculino e o feminino. Eu queria que você comentasse isso…

Bruno Cosentino:  O que está para além, o que tá numa zona de mistério é o que me interessa, sabe? O que eu consiga entender me interessa muito pouco. Embora eu tenha prazer, seja capaz de ter prazer intelectual, e muito. O cheiro é um negócio que te tira a razão. Então, por isso que eu botei isso lá. A coisa da fragilidade, eu vi isso agora, recentemente, na minha filha, que tem quarenta dias que ela nasceu. E é assim, é muito diferente do filho que eu tenho de três anos. E ela já fica emanando uma espécie de feminilidade.

E eu acho que, de certa forma, é uma característica feminina, uma coisa que é fragilidade e força, como se fosse uma coisa só. Ao mesmo tempo que é frágil, é forte. Como se isso fosse a mesma coisa. E eu gosto disso. Eu fiz essa música muito antes, antes da minha filha nascer. É um elogio à fragilidade, é um elogio a você assumir que é frágil, assumir as suas fragilidades. Porque é assim que você é forte; sendo frágil, você é forte. Então, é quase que contra essa ideia norte-americana patológica do vencedor, que você tem que ser o vencedor, então, a pessoa nunca assume suas fraquezas, nunca assume suas fragilidades. E fica sempre passando por cima disso e se ferrando, porque depois vai se ferrar assim, não entende nada, né. Então, a questão da fragilidade é essa.

A nova masculinidade seria um homem menos machão, um homem que entenda a mulher. E a mulher também que entenda o homem. Um homem menos…. um homem… homens flores, como a música do Capucho. Outro dia, eu vi um filme, um documentário no Netflix, mas que falava disso, como é opressor com a criancinha, os meninos desde que nascem. Então, assim: “não chore, chorar é coisa de menina”. E faz isso. E faz aquilo. Aí, eles vão sendo treinados a serem homens. Isso, assim, é um horror… E você vai virando um machinho, como a sociedade quer. Eu lembro de um menino que, quando era adolescente, usava boina, ele era todo bonitinho, meu amigo. E, aí, a partir de um certo momento, virou um marombeiro. E eu vi isso no filme. Vários meninos que não aguentam ser chamados de bichas, de qualquer coisa e, aí, vão tentar prestar contas à sociedade. Aí, vira um marombeiro, um zé mané. Um garoto superbonito, sabe? Gostava de fazer o que ele queria. Então, é muito opressor. Essa história de que você tem que ser homem é muito opressora. A nova masculinidade nada mais é do que você poder ser o que você deve ser. E era para ser assim também com as mulheres. É muito difícil a gente poder ser o que a gente quer ser…

RJ: É que tem a própria macheza e tem a coisa da heteronormatividade também, né? Porque junto é um combo, ser um macho e ser um heterossexual, e se permite pouco deslizamento entre as categorias definidas, da heterossexualidade. A paixão e o amor na sua obra deslizam muito nesse território da sexualidade também…

Bruno Cosentino: É, os homens têm que se tocar mais, entendeu? Então, assim, o meu pai sempre me agarrou muito. E, aí, eu acho que hoje, nunca percebi isso, mas vendo de hoje, eu acho que eu tenho uma sexualidade bem resolvida, muito por causa disso. Meu pai sempre me abraçou, meu pai nunca me cobrou que eu fosse macho.

RJ: É, eu acho que é um preço por ser “homem flor”. Há um preço para bancar a liberdade dos corpos…

Bruno Cosentino: Eu acho que ser gay, socialmente, tem mais preço, paga mais caro do que ser “homem flor”. O Luís Capucho, que é gay, a gente foi fazer um show, ele falou assim: “ah, adoro como você não tem medo”… Nesse show, eu tava me maquiando. “Você não tem medo de que fiquem te chamando de bichinha”… Eu falei assim: “não. Justamente, porque eu não sou. Porque ele, que é, sabe, ele sente no corpo o que é ser. Eu, não”.

RJ: E é engraçado no disco, você emenda uma música super deslizante com uma música do Caetano, “tem que ser você, tem que ser mulher”. E, ainda, fala a coisa do “e homens, o amor mentira pode ser tão bonito”.

Bruno Cosentino: Um pouco dessa canção do Caetano, é que ele canta essa música no grave, assim, “tem que ser você”, tipo, ele faz uma voz de machão caricata, pra cantar essa letra que tem um pouco de caricatura também: “tem que ser mulher”. Então, ele ironiza a própria canção dele ao cantar no grave. Eu botei essa música no disco depois, porque eu percebi que eu cantava várias músicas no eu-lírico feminino, “a minha cabeça de mulher”, e a outra que eu fiz pra minha amiga, que eu falo assim, “sou homem, bicho, mulher” e, depois, fala no feminino também. Aí, eu falei, tá, essa confusão é interessante, porque também alguém já tinha me dito que minha voz, ela fica num registro no meio, ela não é nem grave nem muito aguda, então, é uma coisa meio andrógina, o registro da minha voz. Eu falei, tá bom, então, eu vou colocar essa música do Caetano que eu adoro. E não vou cantar no machão, não vou cantar no gravão. Vou cantar como se fosse uma mulher, porque aí é uma mulher dizendo pra uma mulher, essa confusão, uma mulher dizendo que tem que ser mulher. E, ainda, botei no falsete, botei mais agudo ainda. Cantei na minha região normal que seria e dobrei uma oitava acima, que fica mais agudo ainda. E fica muito diferente da dele que fica no machão.

Aí, a coisa do amor-mentira, acho que foi porque ele [Caetano] gosta muito daquele ensaio do Thomas Mann, que em português foi traduzido como “O casamento em transição” e que no filme dele [Cinema falado] é o Cicero que lê. O Antonio Cicero lê esse trecho, porque o Thomas Mann defende que o amor, o casamento homossexual é o amor puro, porque as pessoas, os dois homens ou as duas mulheres, estão de fato se relacionando contra as convenções porque se amam. Mas ele faz uma espécie de ressalva, um comentário de que a relação homossexual tende a uma estetização.

Eucanaã Ferraz: Deixa eu fazer uma pergunta sobre a canção do Caetano. Esse arranjo é muito bom, da canção do Caetano… queria que você falasse um pouco dos arranjos, do pessoal que toca, falar um pouco do som do disco.

Bruno Cosentino: São os meninos que têm uma banda que se chama Exército de Bebês. Eles têm na casa dos seus vinte e cinco anos e eles são muito bons músicos. Têm seu trabalho autoral também e acompanham muitas outras pessoas. Eles tocam comigo desde o disco anterior, que é o Babies. Eu gosto muito desse disco, Babies. É eu e a banda só. E eles acompanham muitas pessoas, muitos artistas também, porque são ótimos, são muito bons de groove. E eu gosto muito de groove (de suingue). E, aí, eu gosto muito de ritmo e gosto muito de dançar. Esse arranjo do Caetano, eu falei para fazer uma coisa groovada, porque tudo eu quero fazer groovado com eles.

E quando eu fiz até esse Babies, você perguntou a coisa do corpo e tal, chegou um momento em que eu achava que as palavras, em música, faziam tão pouco sentido, na verdade, porque tudo que interessava era dançar, entendeu? Eu acho que, assim, a verdadeira poesia na música é, se fez você dançar, aí, você atingiu o nível máximo da poesia universal. Se você ouvir uma música e falar assim, que não precisa nem de letra… eu acho mesmo, porque, aí, você vai pro Matisse, “a alegria de viver”. É o auge, é o ponto máximo. E, aí, não precisa de letra.

E, pra quem gosta de estudar letra na Faculdade de Letras [risos], letra de música sozinha não importa. O que importa é a canção. É a letra com a melodia. E a letra, muitas vezes, importa menos ainda. É, eu estou sendo radical também, porque tem algumas que são assim. Aí, a letra interessa mais, mas nunca é a letra sozinha. Então, não faz o menor sentido você olhar a letra sozinha, assim, não quer dizer nada. Quer dizer a letra na canção, sabe? Mas tem alguns casos que, não, é puro dançar. Porque eu descobri que o que eu gosto mesmo é disso, eu gosto de ritmo, porque isso pra mim é o que mais interessa. Aí, a banda é muito boa de ritmo. Eu adoro essa banda por causa disso.

EF: Mas como chegou ao desenho dos arranjos?

Bruno Cosentino: Ah, tipo, eles da banda também são muito bons, você passa, assim, e sai tocando e já fica bom. É muito assim. Eu tenho ouvido um disco, até no Spotify, chama-se Negro Prision Blues and Songs. Um cara gravou aquelas canções de trabalho, de blues. Então, é assim: “Ainhenhaêiai PÁ”… e dá uma martelada no chão…  Então essas balizas rítmicas, elas tão sempre ali. Todo canto é o ritmo do canto, a melodia tem um ritmo, que é condicionado por aquelas balizas. Então, o pulso está sempre lá. E, quando o meu filho tava na barriga da mãe, tinha o tamanho de um gergelim, ele já era um coração batendo. Já tinha pulso. Já tinha ritmo. Então, se a gente é do tamanho de um gergelim e já é pulso, é porque a gente é puro pulso. E, aí, tudo é decorrência de ser pulso.

Eu gosto muito do The last poets… eu tenho gostado muito de rap, coisa que eu nem gostava muito, mas hoje eu amo. Porque rap é isso. Você vai num flow, que o pessoal chama. Otávio Paz chama de fluxo poético. Mas os rappers chamam de flow, e tá lá a batida. Eles são incapazes de compor alguma coisa se não tiver ritmo. Então, eles vão e as palavras vão vindo. Isso eu percebi no Amarelo também, de como se você vai no flow, as palavras vêm, as rimas vêm. E as palavras que vêm são surpreendentes. Isso tem a ver com o corpo também.

Bloco 3 – Tudo é circular

Escuta: “Obs.” (Bruno Cosentino/ Pedro Dias Carneiro); 5. “Eu quero ser sua mãe” (Luís Capucho)

Bruno Cosentino: Essa é a segunda música que eu gravei do Luís Capucho. A “Homens flores” eu gravei no disco anterior e essa se chama “Eu quero ser sua mãe”.

RJ: Em várias conversas nossas, você disse que o fato de você ter tido filhos mudou a sua percepção sobre o tempo, e eu acho que isso paira aqui, em algum lugar.

Bruno Cosentino: Mudou que fica tudo mais embaralhado. Como se ligasse as pontas. Aí, eu me ligo a meu pai. Me ligo ao que eu era pequenininho, a quando eu era criança. Então, vou ligando as pontas, mas é muito confuso, na minha cabeça. Ficou tudo mais indistinto, não consigo mais ter muita clareza de nada, da vida mesmo. E a vida ficou mais sem sentido depois que eu tive meus filhos. Dizem que fica com mais sentido, né. Mas ficou sem sentido, porque aí que eu passei a entender nada mesmo [risos]. É só que as coisas se confundem. Agora, eu sou pai e tenho o meu pai, e já fui filho, sou filho, sou pai. Tudo fica muito confuso, em suma.

O que isso pode me ajudar é que eu acho que o estado de criação artística é um estado de confusão também, que você tenta canalizar. Então, isso me ajuda. De forma muito arbitrária e aleatória. Aí, isso me ajuda. De juntar tudo de uma forma muito livre, isso me ajuda.

Não tem nada a ver com essas canções que passaram. A primeira, que eu fiz em parceria com Pedro Carneiro [Vovô Bebê], eu fiz a letra e ele fez a música. Eu tava lendo o Mircea Eliade, que ele falava dos ritos de androginização, e fui vendo como nada faz sentido mesmo. Aí, você volta, aí, tem “tudo é circular”. Aí, sim, é completamente edipiano. Tipo, o desejo sexual masculino ele quer entrar no buraco de onde ele saiu, da mãe. Isso tem a ver com o Vinicius também que lendo aquele poema da Ariana, ele vai pro ventre da terra… tem muito esse lance nele também. Aí, eu fui… entrei numa… num loop. Gente, nada faz sentido mesmo [risos].

RJ: Eu queria que você falasse desses dois parceiros, o Pedro Carneiro e o Luís Capucho, inclusive, você já fez apresentação com os dois. São dois personagens importantes no seu trabalho, de um modo geral. Eu queria que você falasse dos dois, particularmente.

Bruno Cosentino: Eu tenho uma parceria com o Pedro Carneiro que é essa que a gente ouviu antes, pequenininha. E ele que produziu meu disco anterior, o Babies. Eu gosto muito dele, é um puta compositor, muito sério e muito engraçado também, muito bom. Gosto, assim, como amigo e como artista. E admiro muito ele.

E o Luís Capucho, eu amo total. Acho que todos vocês poderiam procurar ouvir o Luís Capucho. Ele tem uma voz superestranha. Não saiam correndo. Fica ouvindo… Tem um disco, que é o Poema Maldito, que é o último, que é maravilhoso. Os outros também são ótimos. E, aí, ele eu amo. Me identifico muito com a poética dele, com a maneira que ele diz, com as melodias, com o canto dele, acho que ele canta lindo. É um puta intérprete. É uma grande presença, assim.  É um dos maiores compositores, pra mim. “Homens flores” é maravilhosa, é linda. É uma obra-prima. E essa “Eu quero ser sua mãe” também, é uma coisa linda. É dele, é do Luís Capucho também. “Homens flores” é, assim, uma pérola de linda que é!

EF: Essa canção do Capucho, “Eu quero ser sua mãe”, eu gostei muito da opção que vocês fizeram com um arranjo aparentemente muito convencional, muito adocicado, aquela balada bem “eu quero ser sua mãe”, bem macia. E a canção vai toda nessa direção e tem aquele final surpreendente, que é te lambuzar com o meu doce e até que vem depois “e ficar matando as baratas que venham te comer”. Porque se você vai lambuzar alguém com doce, vem barata pra comer a pessoa [risos]. E se você é a mãe, você vai ficar matando as baratas. Então, é uma coisa esquisitíssima, surrealista, louca e muito violenta. É uma canção que tem uma violência incrível, disfarçada de balada de amor de mãe pra filho, que não é pra filho, que eu quero ser sua mãe, não é a sua mãe. Tem uma coisa erótica, sexualizada. E tem essa coisa muito violenta e disfarçada num canto e numa letra e num arranjo tudo muito adocicado. E, assim, eu gosto muito da sequência que a canção anterior, ao contrário, ele é esquisitíssima, eu amo essa anterior, que é atonal, você não entende direito, tá na cara que ela é violenta e essa finge que não é. Então, acho essa sequência muito bonita…

Bruno Cosentino: O que caracteriza bem o Capucho é isso, é uma mistura de ternura e violência, de uma forma muito fluida. E isso que é muito fascinante em várias coisas que ele faz. É muito estranho, você unir ternura e violência. Então, é… isso deixa várias coisas que ele faz bonitas assim.

RJ: A coisa da relação de um desejo de experimentar e um desejo de ser também audível ou de ser também canção numa forma mais palatável, numa forma mais popular, isso também é um problema pra quem faz canção, né. Um problema do cara que compõe e quer experimentar, mas que também quer comunicar. Esse disco mais comunica do que “esquisita”, embora “esquisite” também, não é?

Bruno Cosentino: Claro, se você experimenta muito, você paga um preço de não comunicar. Inclusive, a maré tá baixa pra experimentação. Se você quer que aquilo seja um pouco mais divulgado, claro, que depende muito de dinheiro mesmo, basicamente. É, depende também de você ficar cada vez mais careta. E não foi sempre assim, né. Assim, na década de 1960, tinha muito mais… dentro do esquema musical das gravadoras, você tinha muito mais margem pra experimentação, dentro de um esquema. Hoje você tem muito experimentação fora do esquema total. Ou num esqueminha em que ninguém consegue sobreviver do que faz de música.

A experimentação foi colocada num nicho de mercado. E não consegue mais ter a penetração social e cultural que já teve com esses nossos ídolos, sei lá, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, João Bosco. Todas essas pessoas são altamente experimentais. Djavan, todo mundo. Aliavam experimentação com sucesso artístico mesmo, com comunicação. Então, essas baladas, por exemplo, Luís Capucho é uma balada. A intenção foi essa mesmo. Agora, eu sou cada vez mais pela comunicação, acho que a experimentação pela experimentação, eu sei que isso foi bom, mas eu gostava mais de experimentar. Hoje em dia, experimentar na superfície me seduz pouco. Aquela música anterior que é mais experimental, é porque o Pedro Carneiro é super mais experimental que eu. E gosta de loucurinhas. Eu sou cada vez menos pelas loucurinhas. E mais pelo que vai mais fundo, enraíza mais. Mas, aí, eu posso mudar isso também a qualquer momento… eu já estou mudando… [risos].

Bloco 4 – Muito romântico

Escuta: “Certeza triste” (Bruno Cosentino); 7. “Cara” (Bruno Cosentino); 8. “Meu bem” (Bruno Cosentino)

RJ: Eu vi numa entrevista você dizer que descobriu, recentemente, que é um cantor romântico…

Bruno Cosentino: É porque eu descobri que meu tema é esse, a canção de amor. Eu vou fazendo esses discos e vou me conhecendo, eu descobri que é isso mesmo. Isso vem desde o primeiro disco. Quando eu tava fazendo o primeiro disco, meu só, o Amarelo, eu tava ouvindo muito Marvin Gaye. E eu falei, cara, é isso. É isso, tipo, porque é o ritmo, é soul. Porque eu descobri o ritmo, essa coisa, né, do gergelim, do ritmo, e que tudo é ritmo. E tem uma passagem do Otavio Paz no “Arco e a lira” linda sobre o ritmo. Fala que o ritmo sempre aponta para algum lugar do desejo. O ritmo sempre suscita alguma coisa que está por vir.  E, aí, a coisa rítmica era uma coisa. E a outra é a melodia, eu sempre gostei de melodia.

Então, o que eu gosto é de R&B, de ritmo e poesia e melodia e tal. E aí eu fui descobrindo também que a coisa da melodia, o Marvin Gaye, ele fala coisas banais, assim: “Te amo, meu amor”, “I love you baby”, só que ele vai falando dentro daquele fluxo. E é maravilhoso. É tipo Tim Maia. Não importa o que você está dizendo, importa muito a maneira como você está dizendo, a sua voz, a sinceridade com que você está cantando; a magia, a poesia tá muito ali e não na letra. Tá naquele balanço “I love you”, ah, aí dá um gemidinho, sabe?

E eu fui descobrindo que o que eu gosto mesmo é disso. E isso é uma descoberta minha. E agora tá ficando mais maduro isso no som. No Amarelo, não era tão maduro. Agora, nesse último, tem músicas que eu já acho mais bem resolvidas. Essa última, passei já o que eu queria pra banda. E essa banda faz bem e eles gostam disso também, de fazer esse tipo de som que eu gosto. Eles gostam e eu gosto. A gente combinou e a gente fez. Por isso que eu gosto tanto dessa banda.

RJ: O pop também te interessa, né…

Bruno Cosentino: O pop super me interessa, é o que mais me interessa. O pop e a canção romântica. Eu acho que tem um apelo emocional…  Aí, eu regravei “Fui fiel”, do Pablo. Que é um hit, que o Gustavo Lima gravou também. Eu não pude botar no disco por problema de direito autoral, mas tem no Youtube. E essa música é muito linda. Pois é, uma música simples… E, aí, o que me interessa é isso. Esse arrebatamento emocional extremo, assim, você corta os pulsos, se chegar lá, com uma letra banal, não tem invenção. Tem invenção, mas não tem essa invenção que a gente diz, você não percebe a invenção. Invenção porque o cara chegou num ponto que poucos chegam. Então, tem muita invenção, mas o propósito não é esse. O propósito é a expressão.

RJ: E o que você tem ouvido?

Bruno Cosentino: Agora, eu estou ouvindo Otto. Estou ouvindo um garoto da Bahia que é muito bom, Giovani Cidreira, maravilhoso! Ouço Luís Capucho demais. Ouço muito Al Green. Essa galera de soul americana é assim piração. Tipo, Marvin Gaye, Al Green… Al Green, peguei tudo e não paro de ouvir. Já faz mais de um ano que eu ouço direto. Amo! E a canção romântica, né. Al Green. É isso, a canção romântica, Roberto Carlos. Tipo, Roberto Carlos mais suingado, mais preto. É isso que eu ouço.

RJ: Existem clipes vinculados a esse trabalho?

Bruno CosentinoVai ter um clipe, agora, da primeira música, “É claro que eu queria”, muito em breve. Até a diretora [Ana Rovati] me mandou mensagem, que ficou pronto. Eu não ouvi ainda. E “Eu quero ser sua mãe”, do Luís Capucho, tem um clipe [dirigido pela Letícia Pires].

Bloco 5 – A anti-história dos dias

Escuta: “Anti-história” (Bruno Cosentino); 10. “Três (Toque pra nascer)” (Bruno Cosentino)

RJ: Em “Anti-história”, você fala sobre “…a curva decadente da humanidade”, “a democracia ocidental produz tiranos magnatas”… Eu queria saber se política é uma coisa que te interessa.

Bruno Cosentino: Política me interessa muito, mas me interessa onde eu consiga atuar. E eu consigo atuar no meio, na micropolítica da música. Aí, eu consigo atuar e eu atuo muito. Agora, na política institucional, é um registro em que eu não consigo operar, porque é um registro de cinismo, é uma lógica de cinismo tão grande, que eu não consigo. “O riso que não reconcilia” é o cinismo, né. Isso aí acho que é uma frase do Adorno, que eu peguei de segunda mão também, de um ensaio que eu li. E é o cinismo que impera na política institucional.

RJ: Você acha que a música está mais democrática?

Bruno Cosentino: Em princípio, teoricamente, tá à disposição de todo mundo. Mas só na teoria, porque não tá. Porque só chega a você o que tem muito, um modelo muito bem já estruturado, que faz chegar em você. Aqui, não. Aqui, a gente tá trazendo pessoas que não tão dentro de uma coisa. Porque a universidade ainda é um espaço em que você pode respirar. Eu acredito que você pode furar, mas cada vez é mais difícil furar. Cada vez é mais difícil. Eu acho que já foi mais possível. O projeto tropicalista foi esse. Agora, hoje em dia, acreditar nisso, eu acho ingênuo. Porque, depois de neoliberalismo, depois de Breton Woods, depois de tanta coisa que aconteceu na história, acreditar que você pode furar o sistema, eu acho de uma ingenuidade muito grande. Mas era a passagem, a tensão era muito maior, existe uma tensão. Que podia existir, porque eram outros tempos. Agora… década de 60, 70, e, depois, foi piorando cada vez mais, 80, 90, aí, ó, já foi. A racionalidade econômica foi de tal forma minando o espaço de criação. Hoje em dia, existe os i-Tunes, eles não põem um puto de grana pra cobrir, pra fazer o seu CD e são uns magnatas, uns super atravessadores do i-Tunes, Spotify… a gente tá tocando aqui no Spotify. Eu estou tocando o disco no Spotify. Os caras não põem um puto na criação do disco, eu gasto do meu dinheiro, todo mundo gasta do seu dinheiro, os caras não fazem nada pra música e ganham dinheiro em cima de você. As gravadoras colocavam dinheiro na cadeia produtiva. Isso mudou.

Então, a margem de manobra do artista é muito menor do que já foi. Ela existe? Existe. Mas é pequeniníssima. É disso que eu estou falando. Eu acho que cindiu. Talvez, seja melhor cindir. Que, aí, cada um dá nome aos bois. O problema é a falta de pluralidade, a falta de diversificar.

RJ: Mas suas canções poderiam estar no mainstream, né?

Bruno Cosentino: Elas poderiam estar tocando, mas não estão. E eu conheço todo mundo das rádios, conheço todo mundo! E não toca. Não toca porque, sei lá, não estou fazendo acordo, não tem dinheiro. E o espaço que tenho de atuar, os jornais, tão acabando. A gente tá numa transição e já tá indo pra algum lugar, já tá se definindo um outro lugar, talvez. Ou não se defina. Mas eu acho bom também.

Eu estou construindo uma carreira fonográfica, eu estou gravando meus discos, entendeu? Agora, o gargalo mudou de lugar. Antes, o gargalo, pra você gravar um disco, era caro, você tinha que entrar numa gravadora. Você entrava ali. Ali era o filtro. Agora o filtro é fazer show… É muito difícil fazer show. Se você não tem um empresário, alguém que vai vender você pro circuito de shows. Então, o gargalo só mudou de lugar. Nada ficou mais democrático nem nada, não. Ficou mais difícil ganhar dinheiro, agora, você ganha dinheiro com shows, porque você não vende mais CD. Porque os caras te dão um centavo por clique, aí. Inclusive é uma briga da classe artística…

EF: Sobre esses serviços de streaming, mesmo os medalhões que são muito ouvidos, estão ganhando uma coisa, tipo, 150 reais … 150 reais se for um megassucesso, se estourou!

Bruno Cosentino: Uma miséria! Uma miséria! Eles ganham uma miséria! Por isso… por isso é que eles estão lutando. E eles têm algum poder de barganha. É um mal, assim. Tipo, a Amazon. A Amazon vende desde batedeira a livro. A Amazon, que vende livros, não gosta de livros. Ela gosta de vender, gosta de ganhar dinheiro. Quer dizer, esses super atravessadores, o Spotify não gosta de música, o I-Tunes não gosta de música. Eles gostam, o objeto deles é o dinheiro, é como se fosse a bolsa de valores. O objeto deles é o dinheiro, não é a música. O objeto da gravadora era a música. Já foi um dia. O objeto das editoras e livrarias é o livro. Então, assim, a Amazon, se ela vender livro ou batedeira, dá no mesmo pra ela. Ela não tem o menor compromisso com livro.

RJ: É… eu queria que você comentasse essa última canção, “Três (Toque pra nascer)”, especificamente. Na verdade, eu queria que você comentasse isso em relação à coisa ritualística que tem na canção mesmo.

Bruno Cosentino: Essa última música é porque minha mulher gravou meu filho, quando ele era bem pequenininho, cantando essa melodia. E eu gostei da melodia. Melodia de quem não sabe nem falar ainda. Aí, eu fiquei decorando essa melodia, porque eu achei que ela é estranha, porque é de alguém que ainda não domina o sistema tonal. Não sabe o que é uma melodia dentro de um sistema que já existe. E esse toque aí é o toque pra Exu. Eu tava lendo aquele livro Os Nagô e a morte, que é um clássico, um livro de estudos sobre candomblé. E eu me identifico muito com a figura do Exu. Que é, assim, dentro da mitologia nagô ou iorubá, é o primeiro nascido. E ele é filho da mãe e do pai primordiais. Mas, então, ele é o andrógino, porque ele carrega um pouco do feminino e um pouco do masculino. E ele também é representado pelo número 3. É o nome da música, “Três”, que que tem o subtítulo de “Toque pra nascer”. É a última do disco. Tem uma depois, que é um bônus, que eu botei, mas pra mim o disco acaba aí. E eu me identifico muito com Exu porque também é o elemento sexual, é o que atravessa, é um elemento de individuação, de individualidade, de singularidade. Eu coloquei isso aí no disco porque é muito uma coisa minha mesmo também. De fazer sentido pra mim. É um canto do meu filho. Foi uma opção muito pessoal mesmo, que fazia sentido pra mim. E, claro, sempre quero que faça sentido pros outros também, porque não quero ficar explicando também, porque se não, quando você explica, tudo faz sentido, né, você acha lindo.

RJ: É por isso até que a gente ouve primeiro. Me parece que é muito bonito, antes de saber… Eu não sabia de nada disso…

Bruno Cosentino: É, claro, eu só ponho porque eu também acho que vai fazer sentido pros outros. Que nem a outra música lá, a “Certeza triste”, que a gente ouviu antes. É uma música também que minha mulher acordou cantando aquilo. E ela não é compositora, é bióloga. E ela cantou aquilo. Eu achei muito bonito o negócio da certeza triste. E ela foi cantando com essas palavras, assim. E com melodia já: “não quero ter contigo uma certeza triste”. Ela acordou cantando aquilo. Aí, eu até fiz um arranjo e complementei uma parte da letra, mas fiz mal. Mas quis botar num fluxo de banda. Eu não gosto tanto, mas muita gente diz que gosta, então, eu acho que a coisa da certeza triste bate em muita gente, muito mais de uma pessoa me disse que gosta dessa música, inclusive você.


Rafael Julião é professor substituto de Literatura Brasileira na UFRJ, onde fez seu mestrado sobre Cazuza e o doutorado sobre o livro Verdade tropical de Caetano Veloso. É também coordenador do Núcleo de Estudos da Canção do PACC e autor do livro Infinitivamente pessoal – Caetano Veloso e sua verdade tropical (2017).

** Eucanaã Ferraz  publicou livros de poesia, como Desassombro (2002), Rua do mundo (2004), Cinemateca
(2008, Prêmio Jabuti), Sentimental (2012, Prêmio Portugal Telecom de Poesia) e Escuta (2015). Organizou vários livros, como Letra só (2003) e O mundo não é chato (2005), ambos de Caetano Veloso; a Poesia completa e prosa de Vinicius de Moraes (2004) e a coletânea de letras de Adriana Calcanhoto Para que serve uma canção como essa? (2016). É professor de Literatura Brasileira na Faculdade de Letras da UFRJ e atua, desde 2010, como consultor de literatura do Instituo Moreira Salles (IMS).